Sábado. Dia 13 de Agosto de 2011.
Se gosta do Alentejo venha comigo. Se não quiser ou não possa vir, peça a alguém que lhe leia estas linhas e feche os olhos. Depois de ouvir, abra-os e veja se as fotos coincidem com a descrição que ouviu.
Tomamos a estrada que de Évora nos conduz a Sul. Reguengos? S. Mansos? Monte de Trigo? Portel? Vidigueira? Beja? Ná! Nada disso. Cortamos à direita para a Torre de Coelheiros. Deixamo-nos perder a vista pelos campos sem fim e por uma estrada em recta que mais parece não ter final. Passamos por Torre de Coelheiros pela rama. Só de passagem, parece que as terras ainda são mais pequenas do que na realidade são. Mais uns quilómetros. Avançamos não sem antes travar para ver mais de perto uma bela novilhada “ desmamada e pronta para a cobrição” no dizer do meu colega de viagem. a paisagem é soberba para quem gosta do Alentejo. É o nosso caso. À frente um toiro bravo mostra a sua altivez. Põe-se em pose. Fotogénico. Lá ficou e nós lá fomos. Proximidades de Oriola e da Barragem do Alvito. Aí cortamos à esquerda e depois á direita para Santana. De Portel. Santana de Portel. Ao chegarmos uma placa indica-nos Portel para a esquerda e a Junta de Freguesia e os Correios e o Cemitério para a direita. Desço. Não sei, talvez por causa do cemitério, vou para a esquerda. Sozinho. O meu companheiro de viagem foi trabalhar.
Se gosta do Alentejo venha comigo. Se não quiser ou não possa vir, peça a alguém que lhe leia estas linhas e feche os olhos. Depois de ouvir, abra-os e veja se as fotos coincidem com a descrição que ouviu.
Tomamos a estrada que de Évora nos conduz a Sul. Reguengos? S. Mansos? Monte de Trigo? Portel? Vidigueira? Beja? Ná! Nada disso. Cortamos à direita para a Torre de Coelheiros. Deixamo-nos perder a vista pelos campos sem fim e por uma estrada em recta que mais parece não ter final. Passamos por Torre de Coelheiros pela rama. Só de passagem, parece que as terras ainda são mais pequenas do que na realidade são. Mais uns quilómetros. Avançamos não sem antes travar para ver mais de perto uma bela novilhada “ desmamada e pronta para a cobrição” no dizer do meu colega de viagem. a paisagem é soberba para quem gosta do Alentejo. É o nosso caso. À frente um toiro bravo mostra a sua altivez. Põe-se em pose. Fotogénico. Lá ficou e nós lá fomos. Proximidades de Oriola e da Barragem do Alvito. Aí cortamos à esquerda e depois á direita para Santana. De Portel. Santana de Portel. Ao chegarmos uma placa indica-nos Portel para a esquerda e a Junta de Freguesia e os Correios e o Cemitério para a direita. Desço. Não sei, talvez por causa do cemitério, vou para a esquerda. Sozinho. O meu companheiro de viagem foi trabalhar.
Ninguém sabe ou imagina sequer como me é agradável passear, sem tempo controlado pelo relógio, à descoberta destes pequenos povoados alentejanos. Pouco passa das cinco da tarde e o tempo está abafado. Custa a respirar. Pouca gente a mexer. Ainda é hora de sesta. Junto a um parque/café lá está a água, tão bem-vinda neste tempo de canícula. Mais à frente duas preciosidades: um lavadouro público com a indicação expressa de que “ Lavagem de mantas e cobertores só às terças e quartas feiras”. Um portento! Mais á frente uma enorme placa anunciando as saudades que deixaram as festas em honra de Santa Ana, realizadas em Julho de 2009…
A aldeia acaba ali para aquele lado. Mas há outro lado. Sempre tenho que ir em direcção ao cemitério. E vou. As ruas lá estão tipicamente alentejanas : casas térreas “debruadas” a amarelo, azul ou até verde…um mimo! Um ou outro idoso já se começa a aventurar a vir até algum banco à sombra. Não há jovens. Não se veem jovens. Cumprimento e pergunto para que lado é a Igreja. Indicam-me e sigo subindo a Rua da Estação. Chegado ao topo não vejo restos ou sinais de qualquer estação. Perscruto no horizonte e nada. Mas o nome está lá: Rua da Estação. Descubro a Igreja, imponente na sua traça. Está fechada e o relógio tem os ponteiros parados nas seis e trinta e cinco. Mas trabalha que o bater das seis datarde foi dado com grande sonoridade nos altifalantes colocados no cimo da ermida.
Por aqui, por Santana (de Portel) há quem deixe as suas impressões pessoais à porta: uma renda bonita numa porta antiga deixa antever umas mãos de fada (talvez também antigas); uma caixa de correio com a inscrição “BRIEFKASTEN”, deixa antever a existência de algum emigrante; uma bilha de barro lá bem no alto de um telhado, poderá ser sinal de promessa para que a água nunca falte neste Alentejo ressequido; uma placa não identificada cheira a que ali mora uma família cujo apelido está escondido com o rabo de fora…; uma caveira num quintal, poderá ser sinónimo de desesperança por parte de quem já muito lutou pela vida…e nã vê melhorias.
De novo a Rua da Estação. Ao fundo da subida. Dois idosos, meus colegas, tentam refrescar-se com uma leve brisa que começa a soprar. Saúdo.
- Boa tarde, amigos. Tá quentinho…
- Santas Tardes! Pois tá, mas ontem teve mais esbrasiado…hoje há um ventinho…
- Digam-me lá: esta é a Rua da Estação. Houve aqui alguma estação? …dos caminhos de ferro?
- Ná. Nã senhori. Aqui nunca houve acomboio..
- Mas tendo o nome de Rua da Estação…, insisto.
- Nã sê. Aqui desde que me conheço que chamam aqui a isto a estação e essa é a Rua da Estação. Vossemecê pergunta muito bem mas não sabe a quem, como se acostuma dizeri… diz o meu novo amigo, entre uma risada e uma cuspidela com restos de tabaco mastigado sem querer, sinal evidente dum cigarro mal feito.
-Boa tarde Zé. Então e o tu pai? Tá melhori?..
- Olhe lá está na horizontal…
- Tá melhori?
- Tá no Hospital de Beja. Tem uma pedra no rim e agora descobriram outra na bílis…se calhar era por isso que ele tinha aquelas avomitações…
Este, o filho do pai que está no Hospital de Beja, tem sotaque de emigra. Quem sabe será o dono da tal casa que tem a tal caixa de correio…
- Já hoje estive. Vim de lá há bocado. Fiz-lhe a barba que há lá um barbeiro mas eu que lha fiz…deixe-lhe um bigote…
O filho do pai que está no hospital de Beja afasta-se ao fim de algum tempo de conversa. . Um dos ficantes diz:
- Coitado” o pai deste também nasceu para sofrer…só para sofrer..
Responde o outro ficante:
- É assim, há quem passe uma vida e parece que tudo lhe core bem, outros…
E o primeiro ficante que falara, volta-se para mim e dispara à queima-roupa, como se receasse a presença deste intruso em terras de Santana:
- Vossemecê anda a tirar fotografias, é para alguma reportagem?
Expliquei-lhe o que tinha a explicar e disse-lhe que era de Avis, perguntando de imediato se ele, ficante, conhecia Avis.
- Conheci, sim senhor. Andei lá a trabalhar nuns fornos de carvão…
- No tempo da Cooperativa?, tento adivinhar…
- Nã senhori. Muito antes do 25 de Abril…
Agora que a conversa prometia, eis que chega o meu companheiro e minha boleia nesta investida por terras de Portel, por terras de Santana.
Quem sabe um dia não hei-de voltar…nem que seja para rever aos locais que deram lugar às fotos que abaixo vos deixo...
Foto 1: " Deixamo-nos perder a vista pelos campos sem fim ..."
Foto 2: "... uma bela novilhada “ desmamada e pronta para a cobrição”...
Foto 3: "À frente um toiro bravo mostra a sua altivez."
Foto 4: " Junto a um parque/café lá está a água,..."
Foto 5: " Lavagem de mantas e cobertores só às terças e quartas feiras”.
Foto 6: " uma enorme placa anunciando as saudades que deixaram as festas em honra de Santa Ana..."
Foto7: " As ruas lá estão tipicamente alentejanas ..."
Foto 8: " Descubro a Igreja, imponente na sua traça."
Foto 9: " uma renda bonita numa porta antiga ..."
Foto 10: "...uma caixa de correio com a inscrição “BRIEFKASTEN”,..."
Foto 11: "...uma bilha de barro lá bem no alto de um telhado..."
Foto 12: " uma família cujo apelido está escondido com o rabo de fora..."
Foto 13: " uma caveira num quintal, poderá ser sinónimo de desesperança ..."

























































