Quando nada o fazia prever, eis que uma catástrofe ecológica se abateu esta madrugada sobre a Barragem do Maranhão. Junto à ponte, nas imediações do local onde em tempos idos funcionou a Fábrica do Leite, apareceram esta manhã milhares e milhares de peixes mortos a boiar à superfície das águas.
Muitos de nós temos ainda presente o impacte que provocou há alguns anos, a reparação de umas válvulas de segurança junto ao paredão da Barragem e que foi responsável igualmente pela morte de muitas toneladas de peixe. Mas se nessa altura a acção foi consertada, já agora a situação é de todo inesperada já que não há fábricas a laborar a montante da área sinistrada e nem sequer a jusante.
No local encontram-se já as autoridades civis e militares, nomeadamente elementos da protecção civil, elementos das forças de segurança e elementos da autarquia local. Há cerca de meia hora “DO CASTELO” visitou o local e, dado que a notícia depressa se espalhou por todo o concelho, verificou que já são muitos os “mirones” que ali se encontram, notando-se inclusivamente a presença até de gente das freguesias a jusante da área afectada, nomeadamente de Alcórrego e Maranhão, com receio de que, dada a ainda forte corrente existente, a tragédia se estenda para as águas daquelas freguesias.
Vistas de cima da ponte, as águas apresentam uma cor amarelo/azulada que noutras zonas parece mais azul/amarelada e os peixes, nomeadamente carpas e barbos – alguns de grande porte – apresentam o abdómen demasiado inchado e os olhos vermelhos e como que a querem sair das órbitas. Por enquanto ainda não cheira mal.
“DO CASTELO” tentou entrar em contacto e falar com Nuno Sequeira, o novel Presidente da QUERCUS, mas na impossibilidade de o fazer, chegou à fala com Francisco Ferreira, daquela organização. Informou que assim que teve conhecimento do sucedido se meteu no seu carro e se encontra a caminho de Avis, encontrando-se à altura da nossa conversa, precisamente a atravessar a Ponte Vasco da Gama em direcção a sul.
Por sua vez, o Sr. Presidente da Câmara local, lamentando o sucedido, exige que “a verdade seja averiguada e que os infractores sejam exemplarmente punido, se for caso disso” e informou ainda que estavam a ser “repescados” antigos pescadores, como o Anselminho e o Parafuso de Avis, ou o Valério Martins de Figueira e Barros, para se virem juntar ao Tonhico de Benavila na apanha do peixe morto que depois será transportado em camiões da autarquia e enterrado numa enorme vala, sob a superior direcção do SPNA da GNR. Lamentou igualmente os graves prejuízos económicos que esta situação acarreta à Autarquia, numa altura em que são cada vez mais reduzidas as verbas que os Governos Centrais para cá nos canalizam.
Também por ali se encontrava, àquela hora, e demonstrando grande consternação e abatimento pelo sucedido, um dos directores do Herdade da Cortesia Hotel que disse a “DO CASTELO” sentir uma enorme mágoa pelo sucedido, numa altura em que tanta publicidade tem feito quanto às capacidades de navegabilidade e bem-estar ambiental que a Albufeira do Maranhão oferece para a prática do remo e numa altura em que a sua unidade hoteleira regista uma muito significativa taxa de ocupação. Não podemos garantir, mas pareceu-nos ver uma lágrima de raiva a bailar nos olhos deste industrial da hotelaria avisense.
Há hora em que abandonámos o local para vir fazer esta crónica e dar-vos a conhecer o que de tão grave se passa no nosso concelho, corria a hipótese, não confirmada, de que este desastre ecológico poderia ter sido provocado por uma descarga de “cura” das oliveiras provocado por alguém que lhe tenha sobrado produto e se tenha criminosamente aliviado dele na Albufeira ou por lavagem de tanques de produto nas águas do Maranhão. Curiosamente, ninguém atribuía as culpas aos espanhóis, donos da maior área de olival da nossa terra.
É natural que a curiosidade o leve a si a ir até à ponte da Fábrica do Leite, mas se o fizer, cumpra rigorosamente as instruções que as autoridades militares lhe transmitirem, e, se possível, retire a carro da estrada para descongestionar o trânsito evitando assim ainda males maiores.
“DO CASTELO” vai estar atento à evolução desta situação trágica que se abateu sobre a nossa barragem, um dos mais belos espelhos de água de Portugal que se vê assim, da noite para o dia, poluída e alvo das atenções por uma razão menos desejável, e sempre que se justificar voltará aqui para dar notícias mais actualizadas do evoluir desta situação anómala que tanto nos preocupa.
Nota: por motivo deste gravíssimo desastre ecológico, e para podermos dar uma informação mais detalhada e actualizada, hoje não serão publicadas as “Cestas de Poesia”. Aos habituais leitores desta rubrica as nossas desculpas embora pensemos que entenderão perfeitamente as razões desta nossa opção, por demais pertinente e oportuna.