6 – Sinais dos Tempos
Longe vão os tempos em que o Festival da Canção da RTP era um marco importante no panorama musical nacional. Cada compositor esmerava-se para que as suas músicas fossem melodias de encantar, cada poeta fazia o seu melhor para que os seus versos fossem sublimes, cada intérprete tentava ultrapassar as suas melhores capacidades para que tudo saísse na perfeição. Representar Portugal era, para além de um orgulho pessoal uma responsabilidade acrescida pois que sobre os eleitos caía toda uma nação que no dia/noite do Festival Da Eurovisão ficava de olhos postos no pequeno ecrã numa ânsia desmedida de ver a classificação final e fazendo força para que tudo corresse bem, para que Portugal obtivesse a melhor classificação possível. Na altura tinha-se que lutar contra um “fantasma” que se chamava regime político. Portugal não era, á data, bem visto aos olhos de muitos países da Europa, também eles concorrentes e também eles votantes nas diversas canções a concurso. Desse tempo recordo nomes como António calvário, Madalena Iglésias, Simone de Oliveira, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Carlos Mendes, Carlos do Carmo e tantos outros. Eu sei, tudo Cotas! Cotas e velhos mas que foram grandes intérpretes e mui dignos representantes do nosso país. Das finais europeias, o Festival ad Eurovisão deu-nos vencedores do gabarito de uns “Abba” ou duma France Gall ou duma Gigliola Cinquetti, Sandie Shaw, Maciel, ou Celine Dion, por exemplo.
A nível nacional, as canções eram eleitas como sendo as melhores, mercê das votações que pessoas credenciadas, a nível distrital faziam via telefónica. Votava quem percebia do “metier”…
Ora bem, realizou-se a semana passada a edição deste ano do festival RTP da Canção tendo saído vencedores uns tais de “Homens da Luta”. Os tais “votadores” seleccionados, aqueles que percebem do dito “metier”, elegeram uma canção, mas como a escolha (certamente por causa dos 0,60€+IVA de cada chamada…) tinha outra componente composta pelas chamadas do público anónimo e muito dele não especializado em matéria de música, e por via disso, acabou por dar a vitória então aos “Homens da Luta”. Atendendo a que estamos em plena época de carnaval talvez que por via disso a música seja adequada. No entanto, se pensarmos que a canção vai ser apresentada na Alemanha em período que já nada tem a ver com o Carnaval parece-nos que vamos ser os palhaços do festival, pese embora toda a admiração que eu tenha pelo trabalho dos palhaços. Dos palhaços a sério, é claro. Com este andar ainda havemos de ver um ano destes o Quim Barreiros a dizer a toda a Europa que “O bacalhau quer alho” ou outra brutidade parecida.
Há quem diga, quem defenda, que esta canção é uma canção de intervenção, de protesto, de revolta, pelo estado a que chegou o nosso país. Não sei se anuncia um novo PREC, mas a acontecer e a avaliar pelas canções será um PREC muito pior que o primeiro, o original. Que mal se sentiria Zeca Afonso ouvindo este “Homens da Luta”…outros dizem, ainda, que foi a vitória do “povo”, que assim votou.
Mas eu digo: não vá o sapateiro além da chinela” ou se preferirem…”cada caranguejo no seu buraco”…
Vamos esperar até dia 14 de maio (se lá chegarmos...) para ver se a Europa das canções está tão “doente” quanto a Europa política. Não nos podemos esquecer que Portugal é o país que está a participar há mais tempo sem nunca ter ganho; participará pela quadragésima - quinta vez este ano.
Enfim, vejam "Os homens da luta" aqui: