Não sou muito dado a andar em cafés. Acho que a vida pode e deve ser repartida por actividades que exijam mais movimento, mais acção. Daí que quando há dias entrei num café da nossa vila quase me tivessem feito uma festa. Por lá, os rostos do costume.
- É pá, finalmente apareceste, pensava que já tinhas morrido. Senta-te aqui ao pé de nós, disse o Manel, enquanto me ajeitava uma cadeira para eu me sentar.
- O que é que queres beber? Uma cervejola ou uma "survia", como dizem em Bena?
- Não, quero antes um descafeinado… disse e sentei-me.
Sem mais demoras, o João dispara quase á queima-roupa:
- Então o que me dizes á novidade que corre aí pela vila?
Desconhecedor de qualquer “novidade” digna de nota, mostrei o meu desconhecimento em matéria de novidades sonantes, e como normalmente as conversas de café andam quase sempre pelos mesmos temas, atirei quase a querer adivinhar:
-…temos “putices”, Maria Alice…
- Estás enganado pá! A gente a coisas dessas já nem liga…Então ainda não ouviste dizer que se está a preparar uma “invasão” à nossa vila, de ciganos, vindos lá dos lados de Almada…
Porque efectivamente não sabia nada, fiquei até um pouco perplexo e lá disse:
- Não, por acaso não tinha ouvido dizer nada. Mas olha que não me parece que seja assim. E para que é que nós haveríamos de querer mais ciganos no nosso concelho? Só se fosse para que a estação dos Correios não fechasse, dado o grande movimento que lhe dão no dia de receberem os subsídios…
- Brinca, brinca…disse o João, enquanto o Manel retomou a palavra:
- Tu não acreditas mas olha que a coisa parece que é à séria. Disseram-me que até já tinham pedido a inscrição dos gaiatos cá na Escola e que não tinham já aceite a inscrição para que acabem o ano lá em Almada e depois comecem de novo no próximo ano lectivo, já aqui em Avis...
- Não me levem a mal, mas continuo a não acreditar. Se fosse gente produtiva, gente que quisesse investir com trabalho no nosso concelho acreditava, agora assim…deixarem vir para cá ainda mais ciganos dos que já cá há….ponho as minhas reservas…
- Ainda te digo mais: parece que o Tonho é o responsável pela comunidade cigana de Avis na Escola, e ele já disse que se vierem para cá os “outros” que já não quer mais ser responsável por eles…concluiu agora o João, enquanto “emborcava” mais uma mini.
- É assim. Se vocês o dizem e porque não há fogo sem fumo, se calhar alguma coisa se passa. As notícias não caem assim do céu…No entanto eu continuo a creditar no bom senso dos nossos dirigentes locais. Não me parece que recebam assim de mão beijada comunidades que os outros não querem.
Depois de beber o tal descafeinado e porque já me sentia ali a mais, despedi-me e saí enquanto o “venenoso” do Manel me disse em ares de despedimento:
- È verdade, então ainda és do Benfica?
Encolhi os ombros, respondi-lhe: “Que hei-de fazer? Não há melhor” e saí caminhando a cismar no que ouvira. Por certo aquilo não era mais que uma das muitas conversas de café. Percorridos alguns metros pela Rua Machado dos Santos acima, cruzo-me com a Maria que me diz:
- Então você já sabe da grande novidade?
- Não me diga que me vem falar dos ciganos que vêm de Almada?
- Não, por acaso era dos que vêm do Crato…
Retrocedi caminho e fui meter-me em casa, não sem antes ter reparado como as ervas e as folhas secas das laranjeiras continuam a amontoar-se nas nossas ruas, prenúncio talvez de falta de umas boas vassouradas e de umas boas regas...
Prevê-se chuva para esta semana.
Oxalá!