“Cada terra com seu uso cada roca com seu fuso”.
O saudoso “Maranhão” que segundo consta terá falecido a 4 de Janeiro de 2010, já se tinha referido, na distante quinta-feira de 13 de Novembro de 2008, à tradição vivida em Pavia de se fazerem quadras nas paredes na noite de S. Martinho. O meu prezado colega “Desabafos”, voltou agora a relembrá-lo na passada quarta-feira, dia 10, com a ilustração de algumas quadras que recolheu fotograficamente em 2006.
Dia 12 tive que ir a Pavia e em vez de lá chegar à hora que fazia falta fui muito mais cedo e calcorreei as ruas daquela simpática localidade. Cheguei cedo, ainda com sol, e fui pois à procura das famosas quadras. Não foi preciso andar muito para logo dar com a primeira, só que estava escrita num Café-Restaurante e o dono tinha-lhe colocado a ementa por cima: estava ilegível. Pedir ao dono que tirasse a ementa para eu fotografar foi coisa que não fiz. As ruas de Pavia estão cheias de casas branquinhas e ao longe notam-se bem as que estão assinaladas a carvão. E fui vendo, fui lendo, fui fotografando. Nada há melhor para se conhecer uma localidade como andar a pé. Esta minha visita a Pavia durou-me perto de hora e meia. Parece muito tempo, mas para quem gosta de saborear o que vê não é muito. Lembro-me assim de repente de ter passado à Travessa dos Moinhos que de tão estreita não consigo ali imaginar moinhos e muito menos a laborar; à Travessa do Arco, mais que identificada com um belo arco a fazer jus ao nome; a Rua de S. Paulo, enorme; a Rua da Reforma Agrária de boas recordações para alguns e não tanto para muitos outros; a Rua do Sol que deve ter o nome com ela, pois que a julgar pela lonjura que dista desde aquele local até ao sítio onde o sol nasce, vai uma imensidão e o espectáculo deve ser deslumbrante. A Igreja de Santo António que sempre circundamos quando vamos para os lados de Évora; a Igreja da Misericórdia que, a fazer fé no que a Região de Turismo de Évora (é assim que reza a placa informativa) nos diz, “ foi construída nos princípios do século XVII e tem em peanha lateral, a imagem de Nossa Senhora Mãe dos Homens”. A Rua de Aviz, assim mesmo com “z”, dando saída para estes lados e onde, já bem perto da Igreja Matriz estava uma quadra dedicada a um jogador. O Largo Manuel Ribeiro de Pavia em homenagem a este ilustre Paviense.
Em dado passo do meu passeio quis saber algo mais sobre esta tradição. Encontro três idosos num banco e um homem de aspecto um pouco mais novo. Apenas me dizem que aquilo é um costume de Pavia. O mais novo até parece querer mudar a conversa, como se estivesse implicado nas escritas, quando um dos idosos diz que aquilo “só serve para sujar as paredes”. O Menos idoso afasta-se rapidamente e um outro idoso teima em contar-me a história do filho que com 55 anos já está reformado há sete ou oito, que o patrão lhe deu casa e que mais não sei o quê. Como não era aquilo que eu pretendia saber, despeço-me cordialmente e vou à minha vida. Quero encontrar alguém que me fale sobe o S. Martinho em Pavia. Começa a anoitecer e começo a desesperar. Chego à Anta, meu destino final, já bem perto das 18 horas. É de noite e eu sem esperança de saber mais. Reparo num enorme lume que ali se mantém aceso e com gente por perto. Entro no carro e depois de ouvir a “Bola Branca”, saio, aproximo-me e meto conversa. A chegada deu-se bem, a conversa começou a fluir e consegui direccioná-la para onde me interessava. Dizem-me que ali em Pavia é costume fazerem dois grandes lumes por ano: um no S. Martinho e o outro no Natal. Neste de S. Martinho, assam-se as castanhas. Umas quantas raízes de potentes árvores já estavam ardidas mas ainda esperavam a sua vez mais umas cinco ou seis. Quanto às quadras “isto já vem dos tempos do meu bisavô ou tetrasavô” diz um dos nove homens que circundam o lume. Um deles, de mãos atrás das costas, mantém-se calado e está com o “rabo” virado para o braseiro. Deve ser sinal de chuva para amanhã, pensei eu.
Outro adianta: “Antigamente elas eram mais bravas. Levantavam-se logo de manhãzinha cedo e antes que os vizinhos vissem o que lá tinham, limpavam logo tudo o que lá estava escrito acerca dos maridos. Eram muito mais bravas!”.
“Eu este ano safei-me, mas o ano passado, quando já não bebia, fizeram-me três quadras: uma em cada janela e outra na porta. Este ano safei-me.” , comenta outro dos presentes com um sorriso quase de orelha a orelha.. -“Tiveste sorte”, disse outro enquanto chegava a ponta do cigarro a um tição dos mais acesos para pregar fogo ao tabaco.
- Mas na parte de baixo da vila há muito menos quadras do que aqui para cima… aventei eu para não deixar amornar a conversa.
- Calhando aqui para cima há mais bêbados. Lá em baixo no café nem sequer tiraram a quadra do ano passado. Agora está uma, mais sumida do ano passado, e a deste ano mais avivada.
Curiosamente também havia reparado nisso. Nisto chega a camioneta que eu esperava. Não havia tempo para mais explicações mas, afinal, já estava satisfeito com o que ouvira.
Para que apreciem como é possível “criticar” sem ofender em demasia, ou mesmo sem ofender, apreciem as seguintes quadras que rebusquei dum leque bem mais alargado que registei em fotografia.
Mas vendo a bata branquinha do farmacêutico Sr. Matos, palavra que me apeteceu escrever, a carvão na dita bata branquinha:
Antes de ir p´rá Serra D’Agra
Bem que me tramaste ó Matos:
Pois vendeste-me um Viagra
Ia enrolando os sapatos…