Foto Nº 1 : Na mesa de honra, o Professor Dr. António Ventura foi ladeado à sua esquerda por Francisco Alexandre, Presidente da ACA e à direita por José Ramiro Caldeira, vice-presidente da ACA e moderador desta conferência.
António Ventura é um “senhor”. Um “senhor” Professor e um “senhor” conversador que hoje, durante mais de duas horas prendeu a atenção dos vinte e cinco “alunos” que, no Auditório Municipal Ary dos Santos, em Avis, quiseram ouvir uma aula bem dada sobre a República, suas origens e consequências. Entre a assistência via-se Armado Varela, Presidente do Município de Sousel que teve a amabilidade de responder afirmativamente ao convite que lhe foi endereçado pela Amigos do Concelho de Aviz – Associação Cultural, organizadora de mais um evento cultural, agora como forma de assinalar condignamente em Avis, os 100 anos da implantação da República em Portugal.
Na mesa de honra, o Professor Dr. António Ventura foi ladeado à sua esquerda por Francisco Alexandre, Presidente da ACA e à direita por José Ramiro Caldeira, vice-presidente da ACA e moderador desta conferência. O Presidente, depois de agradecer a presença de todos que quiseram estar nesta cerimónia, passou a palavra ao moderador que após divulgar as razões porque o Senhor Governador Civil de Portalegre e o Sr. Vereador Nuno Silva, do Município de Avis, não puderam estar presentes, teceu elogiosas referências ao Professor António Ventura “ autor de mais de 300 trabalhos publicados, 60 dos quais em livro”. Destacou um livro em que António Ventura nos fala da Maçonaria no Distrito de Portalegre, com referência a figuras de Avis e Sousel. Depois passou a palavra ao ilustre orador que começou por dirigir algumas palavras simpáticas à ACA e ao papel que associações como esta desempenham no campo cultural, afirmando mesmo que “tudo o que se faça a favor da cultura nunca é demais”. Referiu-se depois ao facto de proliferarem este ano muitas iniciativas semelhantes àquela em que nos encontrávamos, destacando uma que teve lugar em Almodôvar e onde assistiu à “melhor exposição sobre a República”. Mencionou que em Vila Real de Santo António, nos dias 3,4 e 5 de Outubro foi publicado um jornal com notícias da época, que foram distribuídos por ardinas igualmente vestidos à época e a rigor. Da sua longa, eloquente e bem planeada apresentação rebuscámos algumas frases que nos ficaram no ouvido:
- Prefiro uma instabilidade democrática do que uma estabilidade ditadurial;
- Em 1910 havia 90% de analfabetos, havia a consciência de que não estavam bem, e estavam dispostos a aceitar uma mudança, ainda que pudesse ser para pior;
- No dia 4 de Outubro nada saiu como estava previsto: Miguel Bombarda é assassinado por um doente mental, Cândido dos Reis suicida-se, forma-se um enorme ajuntamento na Rotunda do Marquês onde muitos desmobilizam e é Machado dos Santos quem controla a situação depois de vários desaires;
- A Revolução só vingou porque a Monarquia não se defendeu;
- Dizia-se à época que os Republicanos apenas tinham influência urbana;
- A influência do Partido Republicano era bem maior do que o registado em votos. Os analfabetos não podiam votar bem como quem não pagasse determinados montantes em impostos. Por isso os simpatizantes eram bem mais do que os votos expressos;
- Há fotografias dessa época que mostram a praça de touros de Arronches em dia de comício com centenas e centenas de simpatizantes do Partido Republicano que, no entanto, só ali arrecadou 40 votos;
- O que me espanta é como a Revolução triunfou no meio de tanta confusão;
- Os Republicanos lutavam pelo sufrágio universal, mas uma vez no poder e depois da Revolução nunca o concretizaram: tiveram medo de perder nas urnas o que ganharam com a Revolução.
- Havia muitos partidos à altura. A queda da Monarquia foi a razão da desagregação do Partido Republicano. Até lá, mantivera-se unido apesar de muitas tendências. Após a Revolução fragmentou-se e enfraqueceu dando origem a vários partidos mais pequenos seguindo as várias correntes que o compunham:
- O período de 1910 a 1926 nada tem a ver com o tempo em que vivemos hoje.
Seguiu-se um tempo dedicado a perguntas e respostas tendo começado o diálogo, Inês Casimiro, aluna da Escola Profissional Abreu Callado que inquiriu o professor sobre o papel da Maçonaria na instalação da República.
Foi explicado que "a Maçonaria teve um papel importante na preparação, juntamente com a Carbonária e o Partido Republicano. Eram Maçónicos, por exemplo, Miguel Bombarda e Cândido dos Reis. Referiu ainda como pertencentes à Maçonaria nomes como António José de Almeida, Bernardino Machado e Sidónio Pais, tendo no entanto este exilado o Bernardino Machado apesar de ambos serem Maçons."
João Feio quis saber “até que ponto podemos considerar que aquilo que temos no país é um regime democrático?”
A resposta veio a seguir por estas ou outras palavras:
Vivemos num regime democrático, mais ou menos democrático porque não há uma bitola para medir o grau da democracia.
Quando vemos pessoas corruptas, que deveriam estar presas a governar municípios, isso revolta-nos. Pelo menos no outro regime isso não aconteceria…
Na 1ª República havia menos corrupção e havia mais sentido de Estado, Francisco Grandella, grande Republicano, chegou a pagar dívidas do Estado, desembolsando avultadas verbas do seu próprio bolso. Hoje quem, seria capaz de o fazer? Agora algum grande empresário nacional o faria?
Há coisa que não fazem sentido na nossa democracia. Por exemplo o cargo de 1ª dama. Ninguém elege a 1ª dama e no entanto esse cargo existe…a nossa história recente é uma história complicada…
Marta Alexandre quis saber “qual o papel das mulheres na Revolução Republicana e quais os nomes que a tornaram possível; se fosse possível mudarmos de regime, para um regime intermédio, com um Rei e um Governo, como no caso de Espanha e Inglaterra, se isso seria benéfico dado o enorme descrédito nos actuais governantes; quais os símbolos da República? Moeda? Hino? Bandeira? Há dificuldade em exprimir a realidade dos acontecimentos”
A resposta estava como as outras na ponta da língua, e o Professor respondeu:
Houve algumas mulheres que se destacaram na implantação da República: Ana Castro Osório, Vitória Madeira ou Carolina Ângelo, a título de exemplo. Estavam de acordo com os ideais republicanos mas por vezes não com o papel da mulher na República. Os Republicanos tinham medo do voto feminino que podiam ser influenciadas pelos conservadores. No Distrito de Portalegre ficou célebre pela sua participação activa na propagação dos ideais da Republica, Maria José Pires Santos.
Em relação à segunda questão: cada país tem a sua história. Admito perfeitamente a situação na Espanha, em que verdadeiramente, a Monarquia é uma República que por acaso tem um chefe de Estado que é um Rei. O Rei não governa. Monarquia que é Monarquia tem de ser Monarquia absoluta. Na Inglaterra, por exemplo, a Rainha é uma figura decorativa; é uma peça viva de museu. Inverter as coisas em Portugal? Acho perfeitamente absurdo.
Quanto à proliferação de cerimónias evocativas do centenário da República é uma realidade, há muitas e nem sempre feitas por profissionais competentes, o que leva a que sejam feitas muitas asneiras e alguns perfeitos disparates.
João Feio voltou à carga afirmando que a “República esteve em estado de coma durante 48 anos e agora tem-se assistido a um Fandango Ribatejano em que um dança e o outro acompanha: ora dança o PS e acompanha o PSD, ora dança o PSD e acompanha o PS. Que futuro?”
A resposta chegou célere:
Bem ou mal, os eleitores é que elegem. Se não vão votar é porque não querem votar e o sentido de voto é expresso livremente. A mundialização existe: há fábricas que vão abandonar a curto prazo o território nacional aquando da subida das taxas. Não há dúvida nenhuma que vão procurar países com mão-de-obra mais barata. O que aí vem é péssimo e ninguém é responsabilizado por isso!
Na Islândia vai ser julgado um ex-primero-ministro. Cá não há responsáveis. Quem paga o Estado Social? Não sei nem encontro solução. Os grandes empresários vão-se embora. Alguém devia ser responsabilizado. Os governantes são inimputáveis: saem de ministros vão para gestores e depois saem de gestores vão para ministros…
A partir de Janeiro os funcionários públicos vão sentir aumentar a crise no bolso e nas próximas eleições vão mudar o sentido de voto para quem possa ser alternativa…
Com estas palavras de pouca esperança numa República florescente terminou esta conferência pelo professor Dr. António Ventura que tentámos aqui sintetizar em meia dúzia de palavras.
Valeu a pena estar presente e ouvir falar termos compreensíveis ao comum dos mortais por quem sabe tanto sobre a história da República em Portugal…
Parabéns ao Professor e parabéns à ACA!