Foto 1 - Na capa do seu livro, "vejo" Mestre Artur Azedo numa viagem, "SEM FIM..."
O Sr. Azedo foi meu amigo. Não poucas vezes me mandava recados a dizer que “quando puder passe lá pela oficina”. E eu ia, ciente que viria de lá sempre mais esclarecido, mais sabedor. Curiosamente, apesar de ser um comunista assumido, nunca falámos em temas de política partidária. Recebia-me com a sua bata de um azulão forte e da sua oficina relembro muitos móveis antigos recuperados ou em recuperação, um enorme gramofone e muitos livros manuscritos, todos a lápis e papéis a montes. Não me lembro de ter visto algo escrito em esferográfica, não fosse o lápis um dos seus principais utensílios de trabalho. Tinha enorme orgulho no pai a quem se refeira com entusiasmo e não raras vezes me mostrou um enorme livro com dezenas de desenhos, penso que feitos a tinta-da-china, por seu pai. Este livro foi alvo de várias exposições a nível nacional e, se não estou em erro, também por cá em exposição promovida pelo Município local.
Mestre Artur Azedo tinha quatro terras como referência: Galveias, onde nasceu, Évora onde estudou na Escola Comercial e Industrial, Portalegre, onde estudou e trabalhou e finalmente Avis, onde fixou residência.
Os conhecimentos adquiridos nas Escolas Comerciais e Industriais de Évora e Portalegre, levaram a que se tornasse um sabedor da arte de marcenaria e desenho de móveis. Esses ensinamentos, transmitiu-os ele aos seus alunos, no Internato de Santo António, em Portalegre, onde leccionou, conquistando a amizade e admiração de alunos e colegas professores. A Câmara Municipal de Portalegre, perante as qualidades de Mestre Artur Azedo, encarregou-o do restauro de todos os móveis existentes no museu municipal bem como da criação de novos que ainda hoje o decoram. Portalegre, reconhecida resolveu atribuir a Mestre Artur Azedo o nome de um enorme largo na Zona Industrial de Portalegre, perpetuando assim, o nome deste grande homem de espírito altruísta.
Diz-se que da parte do pai (José António Azedo) herdou a veia artística e que da parte da mãe (Ludovina Rosa Galopim) herdou a veia poética. E era muitas vezes para me mostrar os seus últimos trabalhos em poesia que ele me chamava à sua oficina. Queria me mostrar, queria que eu lhe dissesse o “que achava daquilo”. Ao falar, tinha o modo peculiar de me ir dando pancadinhas no ombro, como se essa aproximação, aumentasse a intimidade da nossa amizade. Mas que lhe podia eu dizer sobre os seus versos se ele era também aí um Mestre?
Tenho em meu poder quatro livros de versos do Sr. Artur Azedo. O primeiro ofereceu-mo ele e está autografado e com dedicatória. A lápis, como não podia deixar de ser.
Os seus livros, qual colectânea, chamam-se “SEM FIM…” e curiosamente escreveu centenas de quadras, transcritas nos livros acima indicados, a começarem pela palavra “SEM”. Como que para explicar esta sua opção de escrita, disse-nos: "Com a palavrinha sem/se podem fazer mil versos/sobre variados casos/e os temas mais diversos."
Como uma minha modesta homenagem, reproduzo aqui a poesia que consta da pág. 112 do seu primeiro livro. A poesia chama-se Caminhos que percorri – Galveias, tenho saudades de ti.
Galveias, tu és tão querida
E admirada por tantos!...
Só tu tens o privilégio
De seres guardada por santos.
Tens S. João e S. Pedro
E também S. Saturninho
E, um pouco mais abaixo,
Santo António, num cantinho.
És de todas a mais querida
Ó minha terra natal,
E para vós, galveenses,
Não há no mundo outra igual.
Quem for ao cimo da serra
Descobrir tuas paisagens,
Verá que não há outras
Tão lindas nestas paragens.
Se a vir das Pedras do Ambrósio
E se ficar muito quedo,
Outra coisa mais parece
Que um cobiçado brinquedo.
E assim, digo convicto
Tudo o que o meu peito encerra;
Saudades dos meus amores!...
Saudades da minha terra!
Se a vires do Alto da Serra
E num dia bem alegre,
Tu verás, decerto, ao longe,
As terras de Portalegre.
E mais podia contar-te
Da minha terra tão querida
Se não tivesse esta idade
Que já pesa em minha vida
E além de tudo isto
E, mesmo que assim não fosses,
Ti tens a bênção de Cristo
E as laranjas mais doces
E no teu S. Saturninho
Já houve papas p’ra dar
A putos e passarinhos
Benzidos no altar.
Nós íamos tão contentes
Com um prato e uma colher
Para lá, alegremente
Essas tais papas comer.
E íamos também à fonte
Ver sua bicas amigas
E os rapazes, à tarde,
Namorar as raparigas
O HOMEM que escreveu estes versos foi ontem sepultado no cemitério de Galveias, sua terra natal.
Mestre Artur Azedo: obrigado pelos momentos agradáveis de cavaqueira que me proporcionou.
Espero que goste desta simples homenagem que lhe faço.
Até um dia destes!












































