Foto: "Está deserta a vila. ..Todas e quaisquer árvores passíveis de parqueamento estão ocupadas com um carro. "
Agora a pé, palmilho a Rua do Convento, dos Arrabaldes, do Meio, dos Mercadores. Ando estafado não de tanto andar mas de tanto calor. Não há cheiros no ar. Apesar de ser hora de almoços. Os gaspachos não têm cheiro. E tenho pena. Fôra outro tempo, outras temperaturas e logo cheiraria a belos refogados cujos aromas se libertam pelas velhas chaminés pondo em polvorosa as nossas pupilas gustativas. Mas não. É verão, é “pino do Verão” e os gaspachos não deitam cheiro.
Feliz de quem trabalha. Porquê? Eis a razão: fui ver as “novas” instalações do Totta. Confesso que gostei. Estão mais de acordo com o staff existente. Mais maneirinhas…Lá dentro o ar condicionado parece querer negar a evidência de um dia de calmaria alentejano: está quase a raiar o frio. Mas não está. E há este pormenor deliciosamente maravilhoso: o Totta tem à disposição dos seus utentes rebuçados. Até aí tudo bem. Mas uma particularidade deveras importante: os rebuçados chamam-se “Blocos de neve”. Com um dia abrasador como o de hoje, com aquele ar condicionado fora de série, os “Blocos de neve” são a cereja em cima do bolo. Por isso feliz de quem trabalha, pelo menos no Totta. Pelo menos no Totta em Avis.
Mas tenho que continuar. Vou aos Correios meter uma carta e a senhora, a D. Sandra, temporariamente responsável pela estação está desesperada. O ar condicionado do seu local de trabalho não funciona bem. Tentamos ajustá-lo e eis que pára de todo. Aflição das aflições! Quase ao acaso lá começa de novo a fazer ar…morno. Como que em jeito de desabafo a senhora ainda diz meio a brincar meio a sério: “tenho que ir ali para a casa dos meus vizinhos”. Os vizinhos sãos os tipos do Totta. Os tais do ar condicionado bom e dos “Blocos de neve”.
São horas de almoço e regresso a casa. Sou alentejano e amigo da sesta. De preferência sozinho por mor das tentações da carne. O almoço até foi peixe.
Quatro horas da tarde. O sol não está a pino mas a temperatura deve estar no seu auge.
Quatro horas da tarde. O sol não está a pino mas a temperatura deve estar no seu auge.
“Quem tem filhos tem cadilhos e quem não tem cadilhos tem”. Rumo a Évora pois só hoje é dia de início de férias para alguns alunos. Antes de ir, olho Avis mais uma vez. Está deserta a vila. Não se vê vivalma. Apenas calor. Todas e quaisquer árvores passíveis de parqueamento estão ocupadas com um carro. Não deixa de ser curiosa este paradoxo: os carros aumentam exponencialmente em proporção inversa à taxa de habitação da nossa vila: quanto mais desabitada mais automobilizada!
Parto pois. Vou só. Tal como na sesta. E só, com o carro a marcar os 38 graus à partida, continuo por esse Alentejo feito braseiro. Ultrapasso o Alcórrego e na Ribeira de Manamar já a temperatura registada acusa 40 graus. Antes de Pavia cola-se nos 41. E não sai dali. Estabiliza a temperatura a 41º e o consumo da minha viatura nos 5,5 litros aos cem. E aí vou eu. Só, com muitos quilómetros para percorrer tenho tempo para pensar. Muito, e de tudo. Dou comigo a filosofar: como é que as azinheiras se aguentam tanto tempo sem beber. Ainda os eucaliptos dizem que mandam as raízes por aí abaixo em procura de água. Mas as azinheiras, devem sofrer muito com a seca. As manadas de vacas aproveitam a sua sombra para se abrigarem do calor. Deve ser as que têm a barriga cheia pois que outras há que continuam a pastar sob este sol abrasador. Se fosse eu, já me doía a cabeça…
Faço um aceno de simpatia às azinheiras que não bebendo ainda dão guarida a quem bebe. Envergonho-me do meu gesto, olho pelo retrovisor não estivesse alguém atrás de mim que tivesse visto. Não há ninguém mas não há dúvida que me estou a passar. Deve ser do calor…
O alcatrão está a “ferver”. Nas rectas parece que se fazem pequenas miragens: algo parecido com água que mais não é que calor. Muito calor. E os 41 graus estão ali colados mas o consumo disparou para os 6,2l/100. O ar condicionado puxa muito pelos carros, apesar de eu ir devagar. Média de 90. Um Renault Clio ultrapassa-me e deve ir na casa dos 120. Quase voa. Passa por mim satisfeito por me ter ultrapassado. Deixo-o ir com a sua satisfação. Curiosamente, lá mais à frente estava a “conversar” com a brigada da GNR. Não si qual era o teor da conversa mas pela câmara que detectei no percurso, devia ser uma conversa de “filmagens”. Porque não me mandaram parar segui, pensando que efectivamente muitas das vezes não é quem anda mais depressa que chega em primeiro lugar.
Às 19 horas regresso a Avis. Já não está tanto calor. Agora a temperatura fixa no carro indica os 38º. É menos mas ainda é muito.
Nas Ilhas notam-se nuvens de fumo lá para os lados de Montemor. Depois desaparecem. Em Pavia mais nuvens de fumo, mais espessas e muito mais próximas, dando a impressão que provinham ali bem perto da estrada que liga Pavia a Mora. Cheira a árvores e pasto queimados. O ar custa mais a respirar.
Chego a Avis, janto uma salada de tomate, escrevo estas linhas e penso em ir deitar-me.
Sozinho. Não porque a carne seja fraca mas porque está muito calor.
Nunca mais abala esta maldita quentura!
Ufa!!!!!!











