Fui visitar a exposição que se encontra patente ao público no átrio do Auditório Municipal de Avis, alusiva ao período da Reforma Agrária e que recomendo. Sempre me fascinaram as fotos antigas sem saber muito bem porquê. Talvez que elas me façam regredir no tempo e parecer-me a mim mesmo que sou mais novo. Gostei do que lá vi.
Embora pela parte de fora, vivi este período e na exposição reconheci muita gente ligada a este movimento. Alguns já morreram outros ainda estão entre nós. Com o Victor fiz uma espécie de jogo a ver quem é que conhecia mais gente, levando eu a palma ou não fosse muito mais velho do que ele…
Com as fotos em mente relembrei algumas passagens do chamado PREC (Processo Revolucionário em Curso), nome dado ao período que se seguiu ao 25 de Abril de 1974. Por curiosos, e embora houvesse muitos mais para contar deixo-vos aqui três “excertos” do “meu” PREC:
1 - É certo e sabido que na altura do período revolucionário, em Avis, só havia duas alternativas: ou se era publicamente apoiante do PCP e das suas causas ou se era contra o PCP. Tal chegou mesmo a clivar cisões no seio das próprias famílias, que o tempo foi sarando. Não sei se de todo mas em grande parte sim. E ainda outra: trabalhadores só os agrícolas e os das fábricas. Os outros (tipo bens e serviços) estavam excluídos dessa categoria.
Havia à altura, junto das antigas instalações da Moagem, na Avenida do Brasil aqui em Avis, umas bombas de gasolina. Ora certa tarde, parei para meter gasolina no meu carro quando ouvi um indivíduo que estava à porta do escritório da gasolineira dizer para o Sr. M. :
- Sr. M. venha lá meter gasolina a mais este fachista
Ao que o Sr. M., vendo que era eu, respondeu entre dentes:
- Este mesmo assim não é dos piores…
O individuou que estava à porta só me lembro que era empregado da Martins e Rebello mas já não me lembro do nome, o Sr. M. sei bem quem era e lamento já nos ter deixado.
Apesar de tudo foi meu amigo, não acham?
2 - À altura era pela EPAC que se faziam os pagamentos das colheitas dos cereais, através dos chamados “Recibos da EPAC”. Ora estes recibos tinham escarrapachado em letras grandes qualquer coisa como isto: “Apenas pagável aos balcões do Banco Totta e Açores”.
Dois elementos de uma Cooperativa do concelho de Avis (que creio ainda existirem resquícios) dirigiram-se ao então Banco Crédito Predial Português para receberem uns recibos da EPAC, fazendo-se acompanhar de uma saca do adubo (era assim que na época se transportava o dinheiro, que era em quantias q.b.) para receberem uma quantidade de recibos da EPAC. A inscrição atrás referida proibia que o Crédito Predial efectuasse os pagamentos. Foi explicado aos cooperantes, por quem os atendia, esta situação e logo um, não compreendendo ou em acção intimidatória diz para o outro:
- Queres ver que este também está contra os trabalhadores…
3 – Tinha comprado um carro novo. O velho Mini (ai, que saudades…) fora trocado por um novo Sinca, azul, lindo… então fui com a minha mulher mostrá-lo a meus sogros.
No regresso, a tardinha, onde se situa agora a Rotunda que dá acesso à nossa vila, vindo dos lados do Alcórrego, uma grande multidão tinha feito uma barragem e toca de me fazerem alto. Parei o carro, fomos obrigados a sair de dentro dele apesar da chuva que caía e foi todo revistado. Até o capôt foi levantado em busca de bombas e ficaram bem visíveis nos estofos as pegadas deixadas pelas botas de borracha elameadas dos "operacionais". No meio daquela turba visionei dois elementos da GNR. Indignado com o que me estavam a fazer – eu vivia em Avis, era de todos conhecido bem como a minha mulher - e com receio que me estragassem o meu belo carrinho novo, ainda disse:
- Mas então não está aí a autoridade para revistar o carro?
Um “manjerico” respondeu lá do meio:
- Aqui a autoridade somos nós todos…
Muito mais teria para vos contar. Hoje ficamos por aqui, talvez que ainda volte a este tema.
Não prometo mas…