Foto 1 - "FRANCISQUINHA" a estrela da companhia...
Foto 2 - MESTRE ORLANDO, "pai da chocalhada" e ANTÓNIO HENRIQUES "pai" da Francisquinha
Foto 3 - Pela Rua do Convento
Foto 3 - O Repasto e o anfitrião
Tal como o meu colega “DESABAFOS” atempadamente noticiou, no passado dia 10, quarta-feira, chocalharam-se as comadres cá pela vila de Avis.
Comecemos pelo princípio.
Tudo começou com uma conversa de cadeira de barbearia quando o Mestre Orlando escanhoava a barba ao Mário:
- Ò Mário, era interessante chocalharmos as comadres como fazíamos antigamente…
- Ó Mestre, eu arranjo os chocalhos...
Estava armado o balho!
O Sr. António Henriques terá sido dos primeiros a ser contactado e disponibilizou-se de imediato para fazer a boneca: a Francisquinha. Foram feitos mais contactos através do Mestre Orlando e arranjou-se uma lista para inscrições que ficou exposta na barbearia: ao todo arranjaram-se 18 foliões.
Embora o dia das Comadres fosse só na quinta-feira, parece que a tradição de chocalhar as comadres, cá em Avis, era na quarta-feira imediatamente anterior. E foi o que aconteceu este ano: às sete da tarde, hora aprazada para a concentração, apenas duas pessoas na barbearia: o Mestre Orlando e o Sr. António Henriques. Melhor, três, pois que a radiosa Francisquinha também já lá estava.
- Sabe uma coisa? A última boneca que eu tinha feito ainda era solteiro, diz o Sr. António Henriques, radiante pela obra conseguida.
Riposto-lhe:
- Pelos vistos, isto de fazer bonecas é como andar de bicicleta, aprende-se uma vez na vida e nunca mais se esquece…
Às oito horas deu-se a partida. Os chocalhos já tinham sido atados, sendo também essa missão pertencido ao Ti Tonho Henriques.
O itinerário pré-estabelecido previa a passagem pelas ruas mais habitadas mas em breve se constatou a quantidade de casas devolutas que há por essa vila, nomeadamente na zona histórica. Aos poucos foram-se introduzindo as alterações que se acharam convenientes.
Na Rua do Convento os actores desta brincadeira, sentiram o calor dos flashes: duma das janelas alguém quis registar este momento único de há muitos anos a esta parte: uma fotografia para recordação. Não cheguei a saber era se tinha sido um Compadre bem-disposto ou uma Comadre incomodada.
Na Rua de S. Roque alguém vindo lá dos lados de Cascais e levada pela curiosidade, quis testemunhar o que se passava. Na Rua dos Muros houve quem espreitasse das águas-furtadas e na Rua das Cisternas duas idosas sorriram ao passar a “chocalhada”, talvez recordando outros tempos, outras histórias. Na parte poente da Rua António José de Almeida era bom de ver as moradoras do Cemitério Velho a espreitarem cá para baixo. A irreverência desta gente levou-os a interromperem uma aula de Inglês que decorria nas instalações da Junta de freguesia. Estupefactos uns, prevenidas outras, a aula terminou pouco depois não sem que antes a Maria Joana Moreno se vingasse da afronta despejando umas mãos cheias de farinha em alguns dos intrusos. Dali o cortejo seguiu tendo percorrido a Avenida da Liberdade, o Bairro Catarina Eufémia e o Ferragial das Amendoeiras, onde a Margarida Passadinhas defendeu a honra das Comadres enfarinhando mais um ou dois compadres. Seguiu-se a Combatentes do Ultramar. Nesta, uma pequena incursão para o Largo de S. Sebastião onde uma Comadre de nome Manuela Caçador, apareceu à janela e disse convicta:
- Se eu não estivesse doente como estou essa boneca já não estava aí não…
Fica a dúvida se estaria ou não.
Já na Rua António Alberto Ferreira Franco, na parte nascente da mesma, uma senhora comentava assomando-se à sua varanda:
- Eu disse para o meu Manel : vem aí um rebanho de ovelhas, e ele disse-me: não vês que não são ovelhas, são vacas…
E lá seguimos pensando como o Manel daquela senhora ia acertando nas vacas…só lhe faltou um bocadinho assim…
A Casa do Benfica estava atenta ao desenrolar do futebol quando aquela maralha irrompe por ali adentro. Alguns mostram cara de chateados pelo incómodo e inesperado da situação, enquanto outros sorriem, não sei se por gostarem da chocalhada se pelo facto de, à altura, o Porto ainda estar empatado…
Na casa do Mestre Orlando havia uma paragem obrigatória – tínhamos que beber ali um copo e um bolinho em festa organizada pela sua esposa. Entretanto já a Enfermeira Nídia, que esperava a caravana na sua casa com mesa posta e, em virtude do percurso ter sido alterado, trouxera a farinheira do marido (salvo seja!!!!) já frita, mais uns bocaditos de queijo e pão que a D. Alexandrina, vinda lá dos Luxemburgos, quisera adicionar ao lanche e à festa. Ali, na casa do mestre Orlando juntaram-se muitas comadres e a Francisquinha ficou bem guardada, a um canto da casa, pois que a todo o momento era previsto um ataque à mesma. Tal aconteceu já na rua, quando a comadre Deolinda fez uma incursão, Rua Machado dos Santos acima, correndo desalmadamente atrás do carro da dita Francisquinha. De imediato foi rodeada pelos capangas de serviço à guarda da Francisquinha, e depois de devidamente chocalhada, a comadre Deolinda regressou a casa com juras de que pró ano as coisas iriam ser diferentes.
Dali até à barbearia do Mestre Orlando não houve nada mais digno de registo, a não ser a cara de satisfação por dever cumprido dos cerca de 25 elementos que acabaram esta divertida forma de repor uma tradição que fazia parte dos Carnavais de antanho.
De registar o fair-play da comadre ANA que acompanhou todo o percurso, testemunhando fotograficamente a totalidade do “espectáculo”.
Esperamos sinceramente que as Comadres não esqueçam este “enxovalho” e que para o ano saiam elas à rua a chocalhar os compadres.
Se a vingança se deve servir fria, daqui até ao próximo Carnaval tem muito tempo de arrefecer. Não acham?












































