Foto 1 - Os cães
Foto 2 - O pequeno almoço
Foto Nº 3 - O sorteio
Foto Nº 4 - A espera
Foto Nº 5 - O abate
Foto Nº 6 - A caçada
Foto Nº 7 - O almoço
Foto Nº 8 - O julgamento
Foto Nº 9 - O leilão
O dia amanheceu de tons plúmbeos pelas sete da manhã. O dia de hoje foi escolhido pela Associação de Caçadores, Apicultores e Pescadores dos Covões para realizar uma montaria. Havia que estar cedo na Sede, instalada nas antigas instalações onde funcionou a Escola Primária dos Covões. Chego por volta das oito da manhã e ainda só por lá estão as cozinheiras de serviço e o Presidente da Associação. Pouco mais.
Calmamente vão chegando os interessados nesta montaria: caçadores ou simples amantes da boa cozinha alentejana, vão se juntando aos poucos. Por volta das nove horas começa a dança dos papéis: há que escriturar as presenças (sócios, não sócios, pessoal das montarias, comensais). Depois proceder à escolha dos guias que irão distribuir os caçadores pelas diversas portas: o Ferreira, o Carlos, o Marques e o Luís são os previamente escolhidos. Acabadas as inscrições, são os números das portas metidos conjuntamente com uma série de recomendações úteis, dentro de envelopes fechados. Segue-se o sorteio: cada qual tira seu envelope enquanto o Ferreira avisa que devem sobrar seis portas de sócios que se inscreveram mas não apareceram. Depois do sorteio e verificadas as portas sobrantes poder-se-à proceder à troca de alguma sorteada que pareça menos boa.
Entretanto chegaram as matilhas.
Acabado o sorteio, o primeiro grande momento do dia para quem, como eu, estou ali pelo convívio e pelas guloseimas da Teodora, da Luzia e da outra senhora cujo nome desconheço mas que igualmente preparou o lauto pequeno-almoço: toucinho frito, febras fritas, chouriço e muitas, mas muitas, fatias de ovos, quentinhas, acabadas de fazer e acompanhadas por vinho branco, tinto, água ou sumos diversos. Para rebater um café, com cheirinho.
Hora da partida. Calhou-me em sorte o Sr. Marques como guia e lá fomos nós a caminho da porta Nº 7. O meu colega caçador (não esquecer que eu fui na qualidade de mochileiro) lamenta o facto da porta não estar mais afastada da mancha. Saberá mais tarde que no local onde ele queria a porta já é pertença da Reserva de Camões. Na altura não sabia.
São onze horas e já estamos instalados. Agora há que esperar até a malta dos cães chegarem. É aberto o banco de tripé e aguarda-se pacientemente. Onze e um quarto e soam os primeiros gritos dos batedores acompanhados dos ferozes latidos dos cães famintos.
- Os cães vêm com fome para serem mais agressivos, diz-me o Manuel Dias, meu companheiro de jornada. Eu que desconhecia, registo.
São cerca das onze e vinte e cinco da manhã. Um melro voa assustado e o Manuel, homem habituado a estas andanças sentencia:
- O melro assustou-se anda aí bicho...
Às onze e meia ouve-se um barulho violento a partir estevas. Um javali corre com quanta força tem para se ver livre da matilha que lá longe o persegue. O Manuel empunha a arma e espera que o animal passe no caminho. A besta aproxima-se. O barulho aumenta. Aparece. O Manuel treme-lhe a mão mas não tira o dedo do gatilho. Um tiro. Erra. Outro tiro. Emendou a trajectória e deu-lhe. O porco ficou ali bem perto a espernear. Um cão chega atrasado, mas chega. O porco já está exangue.
- Eu tinha cá um fezada, diz feliz e orgulhoso o Manuel que soma mais um javali à sua numerosa conta de espécimes abatidas. Já nem sabe quantos exemplares matou.
O cão afasta-se e os batedores soam cada vez mais longe…mais longe.
-Agora só se for algum que vier ao contrário, diz o meu colega caçador da porta sete.
Onze e cinquenta minutos. Ouve-se um partir de estevas secas. Nem eu nem o Manuel dizemos nada mas sabemos que vem ali mais um bicho. Ouvimo-lo aproximar. Está já muito cerca. Espingarda em mira, os braços cansam. O bicho não aparece. O barulho está cada vez mais perceptivo. Os braços aguentam ainda o peso da espingarda. Aí vem ele. Salta para o caminho a cem à hora (ou mais) leva um, dois tiros e afasta-se em louca correria. Depois pára lá em baixo no vale. Pensa-se que está morto. A espingarda é carregada com mais duas balas. Ei-lo que aparece na barreira em frente a fugir mas combalido, lá para duzentos metros de distância ou mais. O animal vai ferido mas não pára. O Manuel da porta sete atira-lhe mais três “balásios”. Vêem-se bater-lhe ao lado. Levantam pó aquelas balas tal como levantam pó as balas que o caçador da porta seis igualmente lhe desfere. O “porta seis” diz que lhe deu, o Manuel diz que foi ele que o fez ir abaixo pois com o declive do terreno nunca poderia “o porta seis” lhe dar. Fica a dúvida. Os cães deram com o porco lá muito longe do lugar “do crime” e os matilheiros apanharam-no. À tarde ainda “o porta seis” dizia que tinha sido ele que lhe partiu a pata esquerda dianteira e o Manuel lhe explicava que não podia ser.
À uma e meia já os cães tinham recolhido às camionetas e já tínhamos perdido o rasto a dois javalis que passaram despercebidos entre as portas cinco e um e se escaparam por aqueles campos fora acompanhados pelas nossas vistas enquanto puderam ser seguidos por elas.
Um telefonema via telemóvel para o Presidente Luís:
- Amigo Luís na porta sete há um javali para recolher…
Regressamos à sede da Associação. Caras de desânimo dos que não atiraram ou não mataram, cruzavam-se com sete caras de prazer: é que dos cerca de setenta tiros que foram disparados apenas se mataram sete porcos. Mais tarde os matilheiros chegaram com o tal que o Manuel ferira e os cães apanharam. Ao todo a batida rendeu oito animais.
Hora do almoço: quinze e um quarto. Quem se poderia negar a uma boa sopa de grão com massa, verdura e carne de porco? E o que dizer da boa pinga da Fundação Abreu Callado? Cinco estrelas que vão direitinhas para as cozinheiras: a Teodora, A Luzia e a outra senhora que não sei o nome.
A tarde avança. A temperatura está amena. Esteve um belo dia de batida.
Há que leiloar os porcos abatidos. Mas antes um ritual. O Domingos Cortes abateu pela primeira vez na sua vida um javali. Tem que ir a julgamento e depois ser baptizado. Sobe o acusado a tribunal sob a jurisdição do Juiz Ferreira. Ladeado à direita pelo advogado de defesa José Bicha, e à esquerda pelo advogado de acusação Joaquim Peixe o julgamento não foi pacífico. No final a pena é decretada pelo juiz Ferreira:
-Que lhe seja feita a cruz na testa com sangue do animal, que seja colocada na cabeça do réu a cabeça do animal e finalmente que se lhe dê um banho de tripas.
O povo ficou contente com a sentença. Aplaudiu batendo palmas entre risos de alegria.
Por fim o leilão. As licitações começaram sempre por 25 euros mas animais houve cuja licitação chegou aos 45 euros.
No final todos ficaram contentes e com vontade que haja uma próxima batida tão breve quanto possível.
A chuva que começou a cair em grossas bátegas, levou ao abandono da Sede da Associação de Caçadores, Apicultores e Pescadores dos Covões mais cedo do que alguns quereriam.
Só para terminar: ouvi por lá dizer que a convite dos Amigos do Concelho de Aviz se iria realizar uma parceria entre estas duas associações para se fazer uma matança do porco à moda antiga, aqui nos Covões lá para os princípios de Março. Com tojos e tudo.
Se assim fôr lá estarei…





























