sexta-feira, 7 de maio de 2010

CESTAS DE POESIA (CXIX)

Depois de alguns meses ter dado a conhecer trabalhos já publicados em livro, volto a reproduzir nas Cestas de Poesia, trabalhos inéditos. De busca em busca, insistindo sempre,  vão-se descobrindo poetas não editados do/no nosso concelho.
Coube a honra a Benavila de nos dar mais um amante da poesia. O seu nome é JOSÉ COUTINHO CALHAU. Natural de Seda desde há muito anos que se radicou em Benavila. Entre outros locais por onde trabalhou, fê-lo vários anos na Fundação Abreu Callado. Agora, reformado, encontra na poesia uma maneira sã e séria de gastar parte do tempo que por direito lhe pertence.
Vamos então passar ao primeiro trabalho deste poeta que Benavila acolheu como seu filho, devendo desde logo reter a ideia de que o amigo José Calhau se preocupa com o ambiente.

Ora vejamos:
A árvore é uma amiga
E vale mais que o ouro
Permite que eu te diga
Para nos é um tesouro


Vamos uma árvore plantar
Esse é o nosso dever
Para o ambiente proteger
E do Planeta cuidar
Porque ele esta a precisar
Sejas rapaz ou rapariga
Não arranjes a briga
Isso vinha mal calhar
E tens é que pensar
A árvore é uma amiga


Toma lá este raminho
Planta lá no teu quintal
Mesmo assim ao natural
Trata-o com muito carinho
É como um passarinho
Na gaiola com comodoro
Pessoa sem nome é mouro
Um arbusto é vegetal
E nunca o trates mal
Vale mais que o ouro

Muitas árvores que plantamos
E muita vegetação
Protege o coração
E é com isso que contamos
Por todo o lado a onde andamos
Mesmo seara com espiga
E o teu pensamento não liga
Por muito que eu te avise
E que a coisa até deslize
Permite que eu te diga


As árvores dão-nos tudo
Alem de proteger o planeta
Danos madeira perfeita
E faz-se negócio chorudo
Vende-se por grosso e miúdo
Linda que emita o coro
Peles de cabra ou de toro
Lindos móveis de salão
Que até nos fazem paixão
Para nós é um tesouro

quarta-feira, 5 de maio de 2010

DOS TEMPOS DO PREC

Fui visitar a exposição que se encontra patente ao público no átrio do Auditório Municipal de Avis, alusiva ao período da Reforma Agrária e que recomendo. Sempre me fascinaram as fotos antigas sem saber muito bem porquê. Talvez que elas me façam regredir no tempo e parecer-me a mim mesmo que sou mais novo. Gostei do que lá vi.
Embora pela parte de fora, vivi este período e na exposição reconheci muita gente ligada a este movimento. Alguns já morreram outros ainda estão entre nós. Com o Victor fiz uma espécie de jogo a ver quem é que conhecia mais gente, levando eu a palma ou não fosse muito mais velho do que ele…
Com as fotos em mente relembrei algumas passagens do chamado PREC (Processo Revolucionário em Curso), nome dado ao período que se seguiu ao 25 de Abril de 1974. Por curiosos, e embora houvesse muitos mais para contar deixo-vos aqui três “excertos” do “meu” PREC:

1 - É certo e sabido que na altura do período revolucionário, em Avis, só havia duas alternativas: ou se era publicamente apoiante do PCP e das suas causas ou se era contra o PCP. Tal chegou mesmo a clivar cisões no seio das próprias famílias, que o tempo foi sarando. Não sei se de todo mas em grande parte sim. E ainda outra: trabalhadores só os agrícolas e os das fábricas. Os outros (tipo bens e serviços) estavam excluídos dessa categoria.
Havia à altura, junto das antigas instalações da Moagem, na Avenida do Brasil aqui em Avis, umas bombas de gasolina. Ora certa tarde, parei para meter gasolina no meu carro quando ouvi um indivíduo que estava à porta do escritório da gasolineira dizer para o Sr. M. :
- Sr. M. venha lá meter gasolina a mais este fachista
Ao que o Sr. M., vendo que era eu, respondeu entre dentes:
- Este mesmo assim não é dos piores…
O individuou que estava à porta só me lembro que era empregado da Martins e Rebello mas já não me lembro do nome, o Sr. M. sei bem quem era e lamento já nos ter deixado.
Apesar de tudo foi meu amigo, não acham?

2 - À altura era pela EPAC que se faziam os pagamentos das colheitas dos cereais, através dos chamados “Recibos da EPAC”. Ora estes recibos tinham escarrapachado em letras grandes qualquer coisa como isto: “Apenas pagável aos balcões do Banco Totta e Açores”.
Dois elementos de uma Cooperativa do concelho de Avis (que creio ainda existirem resquícios) dirigiram-se ao então Banco Crédito Predial Português para receberem uns recibos da EPAC, fazendo-se acompanhar de uma saca do adubo (era assim que na época se transportava o dinheiro, que era em quantias q.b.) para receberem uma quantidade de recibos da EPAC. A inscrição atrás referida proibia que o Crédito Predial efectuasse os pagamentos. Foi explicado  aos cooperantes, por quem os atendia, esta situação e logo um, não compreendendo ou em acção intimidatória diz para o outro:
- Queres ver que este também está contra os trabalhadores…

3 – Tinha comprado um carro novo. O velho Mini (ai, que saudades…) fora trocado por um novo Sinca, azul, lindo… então fui com a minha mulher mostrá-lo a meus sogros.
No regresso, a tardinha, onde se situa agora a Rotunda que dá acesso à nossa vila, vindo dos lados do Alcórrego, uma grande multidão tinha feito uma barragem e toca de me fazerem alto. Parei o carro, fomos obrigados a sair de dentro dele apesar da chuva que caía e foi todo revistado. Até o capôt foi levantado em busca de bombas e ficaram bem visíveis nos estofos as pegadas deixadas pelas botas de borracha elameadas dos "operacionais". No meio daquela turba visionei dois elementos da GNR. Indignado com o que me estavam a fazer – eu vivia em Avis, era de todos conhecido bem como a minha mulher - e com receio que me estragassem o meu belo carrinho novo, ainda disse:
- Mas então não está aí a autoridade para revistar o carro?
Um “manjerico” respondeu lá do meio:
- Aqui a autoridade somos nós todos…

Muito mais teria para vos contar. Hoje ficamos por aqui, talvez que ainda volte a este tema.
Não prometo mas…

segunda-feira, 3 de maio de 2010

AVIS EM ALTA ( POR ATACADO...)

No dia em que foram tornados públicos os premiados nos VIII Jogos Florais de Avis, organizados pela Amigos do Concelho de Aviz – Associação Cultural, “DO CASTELO” soube que o nosso amigo e assíduo leitor, Fernando Máximo, elevou o nome de Avis em diversos certames culturais a nível nacional.



“DO CASTELO” teve igualmente acesso à lista de prémios que o referido Fernando Máximo obteve durante o ano de 2009, sendo que nas cerimónias de entregas de prémios o nome de AVIS foi sempre referenciado. Passa-se a referir:



- Trovas para um mundo melhor (Quadras) – Brasil2º PRÉMIO



- Jogos Florais de Almeirim 2008/2009MENÇÃO HONROSA na modalidade de DÉCIMAS (21 Março de 2009)



- 93º Concurso de Quadras do Clube da Simpatia – OlhãoMENÇÃO HONROSA (28 de Março de 2009)



- VI Jogos Florais de Lagos3º PRÉMIO na modalidade de DÉCIMAS (03 de Maio de 2009)



- Jogos Florais da Academia de Santo Amaro - Lisboa3º PRÉMIO na categoria de FOTOGRAFIA



- Jogos Culturais de Montargil8º PRÉMIO na modalidade de Quadra (23 de Abril de 2009)



- Concurso de Quadras Populares alusivas aos Santos Populares – Câmara de AlmadaMENÇÃO HONROSA (Julho de 2009)



- XVIII Jogos Florais da Associação de Reformados Pensionistas e Idosos de Évora2º PRÉMIO na modalidade de CONTO (25 de Julho de 2009)



- 20ºs Jogos Florais da Junta de Freguesia da Ameixoeira – Lisboa1º PRÉMIO na modalidade de CONTO
e 3º PRÉMIO na modalidade de FOTOGRAFIA (26 de Julho de 2009)



- XII Concurso Literário Algarve-Brasil 2009- OLHÃO – 3º PRÉMIO na modalidade de CONTO



- IX Jogos Florais da Alma Alentejana – Almada2º PRÉMIO na modalidade de CONTO (25 DE Outubro de 2009)



- 96º Concurso de Quadras do Clube da Simpatia – Olhão 3º PRÉMIO (Dezembro de 2009)



Fica o registo.

domingo, 2 de maio de 2010

ERA ASSIM MESMO QUE EU DIZIA!

Às seis horas da tarde a Casa do Benfica em Évora debitava decibéis q.b. com música alusiva ao Sport Lisboa e Benfica, enquanto uma “barraquinha” colocada no exterior se preparava para fazer uma boa noite de vendas. Ao passar, fiz-lhes um V de Vitória e gritei-lhes:

- Só para a semana!

Na Rotunda de Pavia, às 19 e 30 numa tarja branca ali colocada podia ler-se a palavra RESERVADO entre dois emblemas do glorioso. Disse para a minha esposa:

-Esta faixa só faz falta para a semana.

Estavam certas as minhas previsões (se eu acertasse assim o euromilhões…).

Efectivamente, depois da justa vitória de hoje do Futebol Clube do Porto (é a minha opinião e como tal vale o que vale) é chegada a hora do Benfica, no próximo fim-de-semana, mostrar porque razão é o Campeão Nacional da Liga Sagres época 2009/2010.

Ainda vai muito a tempo (o pior é se não vai….)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

CESTAS DE POESIA (CXVIII)

Como tínhamos dito, acaba hoje a passagem do poeta Ervedalense CASIMIRO NEVES DE ALMEIDA pelas “Cestas de Poesia”. Foram vários os trabalhos aqui apresentados e muitos mais haveria para apresentar, mas queremos dar á estampa outros autores. Para o mês de Maio vamos voltar a poetas do concelho, que não tendo nenhum livro publicado não deixam de ter inéditos guardados na gaveta. Fiquem atentos…
Para terminar esta série nada melhor do que sabermos qual é a intenção do autor, ou seja qual é a intenção de CASIMIRO NEVES DE ALMEIDA:







A intenção do autor

Eu queria ser omnisciente
Ser um sábio universal
P’ra pôr um dique à corrente
Causadora deste mal.



Não quero honras nem brasão
Nem as glórias do Parnasco!
Mas combater o atraso
De luz na população!
Queria dar educação
Cívica e consciente
Com o génio eloquente
Formar pios um mundo novo
Para educar o povo
Eu queria ser omnisciente



P’ra atacar o problema
E vencer tais obstáculos
Queria dar bons espectáculos
De teatro e de cinema
Dar festas num teorema
Todo de luz e moral
Abrir a escola ideal
De arte, ciência e magia!
Ensinar filosofia
Ser um sábio universal.



Queria saber dar o corte
Ao vírus que tanto condeno
Que vem espalhar o veneno
D’epidemia da morte!...
A causa dessa má sorte
Está no estado deprimente
Do atraso repelente
Que causa raiva e tédio
Eu queria dar-lhe remédio
P’ra pôr um dique à corrente.



Eu queria ter habilitações
De valor bastante extenso
Para indicar o bom senso
Através das multidões.
Por meio de boas lições
De bom conceito moral!
Espalhar conforto vital
Combater a incerteza
Da miséria e tristeza
Causadora deste mal

quinta-feira, 29 de abril de 2010

CONCURSO DE QUADRAS POPULARES ALUSIVAS AO 25 DE ABRIL: PARABÉNS AOS VENCEDORES

"DO CASTELO" endereça os parabéns aos vencedores do concurso concelhio de quadras populares alusivas ao 25 de Abril.
ANIBAL FERNANDES, DINIS SUTIL E CÉLIA VIOLANTE foram os distinguidos no ano de 2010, com os seguites prémios e respectivas quadrtas ganhadoras:



1º Classificado - Aníbal Fernandes/AVIS



Com Abril, em Liberdade
E com Maio no coração:
Passa o tempo e a idade
Mas não morre a Revolução.



2º Classificado e conjunto das duas melhores quadras - Dinis Muacho / Aldeia Velha



-Oh vastos sentires de Abril, tão puros…
Acorrentados à grenalha de ferro, feroz!
Rubros craveiros, presos em fortes muros
Clamaram Liberdade...o Povo foi essa voz



Em cada será, avante um rosto de luta
De sonho de um Povo, que almeja igualdade
Abatendo a tortura, esse fadário de cicuta
P’ra florir em Abril os cravos da Liberdade



3º Classificado – Célia Violante / Benavila

Cresce livre esta criança
Por ser filha da verdade
Por ter nascido da esperança
Com Abril, em liberdade



quarta-feira, 28 de abril de 2010

"CAFÉ COM LETRAS" COM SABOR VEGETARIANO

Amanhã, quinta-feira dia 29 de Abril, irá realizar-se mais uma sessão do “Café com Letras” na Sede da Amigos do Concelho de Aviz – Associação Cultural”.

Tendo como convidada ANA RIBEIRO, a conversa de amanhã versará a temática relacionada com a cozinha vegetariana.

Depois de no mês passado se ter ali falado (…falado pouco e comido muito) acerca da comida tradicional, é a vez da tertúlia de amanhã nos levar a aprender mais sobre os prazeres da cozinha vegetariana.

O nível de expectativa para este “Café com Letras” está colocado muito alto. Depois dos belos acepipes com que Sílvia Laires e João Milheiras nos brindaram em Março, como irá Ana Ribeiro suplantá-los? Que "provas" iremos ter desta vez?

Só há uma maneira de saber: amanhã apareça na ACA.

As entradas são livres tendo ingressos assegurados os sócios e os não sócios da ACA.

Eu, por mim, vou ver se não falto! E você?

segunda-feira, 26 de abril de 2010

ROSAS

Foto 1 - "Sinto orgulho no meu jardim"
Foto 2 -"...de paus aparentemente secos, brotaram agora...estas belas flores..."



Sinto orgulho no meu jardim. Leva-me algumas horas de trabalho, mas acaba por dar um produto final muito positivo, onde apetece estar e desfrutar da beleza das flores e das verduras. O que vos dou a conhecer hoje, são as primeiras rosas que este ano lá se produziram. Daquilo que ainda há muito pouco tempo não passavam de paus aparentemente secos, brotaram agora, tal como o ano passado, e no outro anterior e no outro… estas belas flores generosamente perfumadas.

Porque será que a nossa vida não rejuvenesce também, em vez de cada vez se ir mais afundando, em vez de cada vez sermos mais “paus secos” impossibilitados de dar rosas?

Porque será?

domingo, 25 de abril de 2010

JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS, UM POETA DE ABRIL!

"As Portas que Abril Abriu" - José Carlos Ary dos Santos


Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.


Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.


Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.


Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.


Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.


Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.


Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.


Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.


Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.


Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.


Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
Tem de haver distanciação


uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.


Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.


Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.


Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.


Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.


Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.


Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país
do ventre duma chaimite.


Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!


Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.


Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.


E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.


Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.


Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma ração
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão.


Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.


Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril f
fez Portugal renascer.


E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.


Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.


E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.


Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.


Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.


Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.


Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.


Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.


E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.


Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.


E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.


A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que se desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.


Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.


E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideais
ambos sectores explorados

ficaram partes iguais.


Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio fazia
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.


Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.


E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.


Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.


Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.


Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.


Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.


Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
— cumpriu-se a revolução.


Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.


Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.


E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.


Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.


E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.


Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.


Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.


Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.


Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.


Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.


Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
– Não havia estado novo
nos poemas de Camões!


Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.


Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram


das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.


Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.


E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalho crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
dum país que vai nascer.


Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser


pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.


No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!


É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.
Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.


De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.


Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.


Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

sábado, 24 de abril de 2010

A ÁGUIA CADA VEZ VOA MAIS ALTO!

Foto: A ÁGUIA CADA VEZ VOA MAIS ALTO

Não há dúvida de que estamos a atravessar um período em que o que está a dar é ser-se ÁGUIA ou pelo menos ter-se uma.

De momento não estou a referir-me à Águia Vitória que este ano voou mais alto que qualquer réptil ou dragão, mas sim à ÁGUIA dos Amigos do Concelho de Aviz – Associação Cultural que já por aí chegou e na segunda-feira vai aparecer em força junto dos sócios daquela associação e não só.

Tendo como tema de capa a Solidariedade, não deixa de abordar outros temas relacionados nomeadamente com a Poesia, o Teatro ou a Mulher.

Eu, se fosse a si, arranjava uma. Mais que não fosse para saber o que alguém pensa sobre a hipótese de os homens fazerem ou não uma corrida de chinelos no dedo para alcançarem bilhetes para um jogo do Benfica.

Palpita-me que esta referência ao Benfica numa Folha Informativa como a Águia, é prenúncio mais que evidente de que haverá boas novas a muito curto prazo para os amantes das “Águias”…

A ver vamos…

sexta-feira, 23 de abril de 2010

CESTAS DE POESIA (CXVII)

Chegámos à penúltima “Cesta de Poesia” dedicada ao poeta Ervedalense CASIMIRO NEVES DE ALMEIDA.
A sua luta em defesa da vida contra a morte, nomeadamente através do suicídio, é bem patente nestas décimas que hoje deixamos à vossa consideração:


Título: Pedido aos meus conterrâneos mais lúcidos


Meus estimados amigos
Da minha terra natal
Combatam o suicídio
Que é nefasto e imoral


Velho, doente e cansado
Já pouco posso fazer
Mas ainda quero combater
Esse flagelo maldito.
Haja quem esteja a meu lado
Queria conjurar os perigos
É seguir estes artigos
Incutir fé, firmeza!
Combatam essa fraqueza
Meus estimados amigos.


Quem achar justo e razão
Combatam o retrocesso!
É um favor que vos peço
Do fundo do coração!
Façam ver que o cidadão
Tem por dever ideal
Manter a vida integral!
Fugir à tola mania
Que é a norma mais sombria
Da minha terra natal


A minha terra sublime
Atraente e cobiçada,
Saudável e mimosa
Tem direito a que s’estime.
O suicídio é um crime…
Igual ao do fratricídio!
É como o infanticídio!
Só diferente nos conflitos
Deter tanto estes delitos
Combatam o suicídio.


Quando ouvirem comentar
Essa pecha tão perigosa
Façam ver que é criminosa
Que se deve condenar!
É loucura singular
É mesmo parecer mal
A vida é mola real
Que ninguém pode alijar
Acabe-se o suicidar
Que é nefasto e imoral.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

CULBE NÁUTICO: ASSIM TÁ BEM

Com a reabertura ao público do seu restaurante, o sítio do Clube Náutico, em Avis, retomou a importância que havia perdido há bastante tempo.


Sob a batuta do João Milheiras, ali qualquer um pode, entre as nove horas da manhã e as duas da madrugada, desfrutar do serviço de refeições, bar ou esplanada. Com sala de repasto para cerca de cinquenta pessoas, lá é servida comida regional, porco preto, migas, marisco, entre outras iguarias bem como uma vasta gama de gelados.


A não esquecer os petiscos variados: garanto que são de comer e chorar por mais.


Com um recheio a nível de equipamentos completamente remodelado e de última geração, o Clube Náutico (Bar-Restaurante com churrasqueira), mantendo a qualidade a que a Taberna da Muralha nos habitou, tem reunidas todas as condições para que você passe uns momentos agradáveis junto de uma das mais deslumbrantes paisagens da Albufeira do Maranhão.


Ah! Não esqueça: encerra às quintas-feiras para descanso (merecido) dos empregados.


Posto isto…vamos lá beber uma imperial?


Bora lá!