Tal como tinha anunciado, "esgotou-se-me" o stock de recolhas feitas junto dos poetas do nosso concelho. Sei que ainda por aí há mais para recolher. Irei fazê-lo mas não sei quando. Assim, irei agora falar de alguns poetas, igualmente "nossos", mas já com obra editada.
Para começar falarei daquele que para mim terá sido o maior poeta popular, repentista, nascido no concelho de Avis: JAIME VELEZ, "O MANTA BRANCA".
Para nos situarmos no espaço e no tempo, vou servir-me do Livro "Cosme de Campos Callado - O Homem e a Obra - 1948-2008", com edição da Fundação Abreu Callado, em Dezembro de 2008. Na página 36 e sob a responsabilidade de Fernando Máximo, escreve-se:
" ...Jaime Velez, por alcunha "O Manta Branca", nascido em Benavila a 30 de Julho de 1894. Jaime Velez foi ganhão e era analfabeto. No entanto, tinha uma veia poética e repentista que lhe permitia em qualquer situação responder a um desafio, versejando sempre...... São diversos os episódios conhecidos que fazem parte da sua longa história de vida. Um dos mais repetidos e que merece ser mencionado, prende-se com o facto de em certa ocasião, na casa do seu patrão se ter feito uma grande festa e estando inclusivamente entre os convidados um ministro. Jaime foi instado a que dissesse uns versos para animar a festa. Resistiu quanto pôde, mas achando ali mais uma oportunidade de poder defender os trabalhadores e zurzir no poder instalado, acabou por aceder depois do patrão lhe ter assegurado que nenhum mal lhe adviria. E disse então a seguinte quadra:
Não vejo senão canalha
De banquete para banquete,
Quem produz e quem trabalha
Come açordas sem "azête"
Depois, de modo repentista, vieram os restantes versos que compunham as décimas:
Ainda o que mais me admiraE penso vezes a miúdo:Dizem que o sol nasce para tudoMas eu digo que é mentira.Se o pobrezinho conspiraO burguês com ele ralha,Até diz que o põe à calhaNem à porta o pode ver.A não trabalhar e só comerNão vejo senão canalha!Quem passa a vida arrastadoPor se ver alegre um diaLogo diz a burguesiaQue é muito mal governado,Que é um grande relaxado,Que anda só no bote e "dête".Antes que o pobrezinho "respête"Tratam-no sempre ao desdémE vê-se andar, quem muito tem,De banquete para banquete.É um viver tão diferenteSó o rico tem valor.E o pobre trabalhadorVai morrendo lentamente.A fraqueza o põe doenteE a miséria o atrapalha;Leva no peito a medalhaQue ganhou à chuva e ao ventoE morre à falta de alimentoQuem produz e quem trabalhaFeliz de quem é patrãoE pobre de quem é criadoQue até dão por mal empregadoO poucochinho que lhe dão.Quem semeia e colhe o pãoNão tem aonde se "dête",Só tem quem o "assujête"Para que toda a vida chore,E em paga do seu suorCome açordas sem "azête" "
Será pois com poesia deste quilate que irei preencher as próximas "Cestas de Poesia".
Penso que não poderia haver melhor maneira de começar, poeticamente falando, o ano de 2010.