Foto 1 : "Meto-me por uma rua estreita cujo nome não fixei."
Foto 2 :" Cresceu muito a "nossa" palmeira."
Foto 3 : "Paredes meias está a Fábrica da Cortiça, a Robison."Chego a Portalegre por volta das dez da manhã. Sei que tenho cerca de duas horas para "gastar" na minha cidade. Estaciono na Corredoura, ali mesmo junto ao Cinema Crisfal onde por tantos anos vi na década de sessenta: Jean Paul Belmondo, Sofia Loren, Joselito, Cantiflas...
O dia está de nevoeiro, não há vento e de quando em vez caem umas pingas de chuva. A temperatura a rondar os dezassete graus está demasiado alta para a época. Parto á deriva.
Desço a Corredoura e corto à esquerda para a Rua da Casa de Saúde onde agora estão instaladas as Águas do Norte Alentejano. Ultrapasso a Rua dos Canastreiros, a da Mouraria e dirijo-me com intenções de ir ao antigo largo dos Correios. Na Benvindo Ceia noto que há uma nova "saída" para a esquerda devidamente arranjada. Vou por aí e percorro as muralhas, pelo lado de fora, reparando que mesmo arrumadas à muralha e do outro lado, existem várias casas com estreitas portas pintadas de cores garridas. Ao fim deste novo percurso (pelo menos para mim) uma placa que diz por estas ou outras palavras: "A Barbacã foi reconstruida através do projecto Polis". Corto à direita e passo pela Igreja de Santiago onde a presença de vários militares da GNR me faz supor de que o funeral que ali se vela será de algum elemento daquelas forças. Passo pelas antigas instalações do Banco de Portugal, pelo largo onde outrora existiu uma sociedade cujo nome já se me varreu e chego à Rua do Comércio. Betine Estúdio, afinal o meu destino final. Saio deste espaço, desço cerca de trinta metros e inflito à direita. Subo a Rua do Pirão e revejo com agrado que ainda por ali se mantêm as antigas carvoarias. Pelo menos duas. E descubro que lá existe o Beco da Pobresa. Assim mesmo com "s" porque, se calhar, com "z" sairia a placa mais cara. Subo, subo, subo, e depois continuo junto às muralhas. Meto-me por uma rua estreitinha cujo nome não fixei. De tão estreita é difícil entrar naquelas portas, quanto mais sair dali, por exemplo, um caixão. Desço-a e vou cair na Praça da República. Polícia de Segurança Pública, Escola Superior de Educação. Exito em entrar nesta. Mas tenho que entrar. E entro. Onde se situa hoje a Escola Superior de Educação existiu em tempos o Liceu Nacional de Portalegre onde durante cinco anos me "perdi" entre livros e trabalhos escolares. Entro e vou até ao pátio. Ali resta a palmeira. Era baixa no meu tempo e dela comíamos belas tâmaras. Cresceu muito a "nossa" palmeira. Cresceu na mesma proporcionalidade em que eu envelheci. Sinto-me mais pequeno do que quando, miudo, por aqui andava. À direita da palmeira a sala onde, certo dia, numa aula de Geografia, a professora pediu ao Sr. Antão, contínuo do Liceu, que lhe trouxesse a planta. Para admiração de todos e alguns risos abafados o Sr. Antão trouxe uma planta num vaso. Talvez a planta que servia de exemplo em aulas de Botânica. Subo a enorme escadaria rumo ao primeiro andar. Já me custam a subir as escadas. As mesmas salas? Não. Há divisórias novas. E uma exposição da Quercus sobre "Natureza em Risco". Achei-a interessante e já contactei aquele organismo no sentido de que a referida exposição passe por Avis. Vamos aguardar. Desço as referidas escadas e saio com uma lágrima - como é habitual - ao canto do olho. Não tenho culpa de ser assim. Penso como é diminuta, para não dizer nula, a segurança neste estabelecimento de Ensino. Entrei onde quiz e ninguém me inquiriu. Ah! Esta vem-me sempre à lembrança. Ali à porta parece-me rever ainda o Sr. Reitor, o Dr. Chichorro Marcão, numa certa manhã de Primavera em que eu e mais dois colegas de turma resolvemos trocar o abafado da sala de aulas por um passeio pelo campo, indo até lá bem para baixo junto à Praça de Touros. Mal sabíamos nós que à chegada teríamos a inesperada presença do Sr. Reitor, possuidor de umas enormes mãos que não exitava em atirar à cara dos alunos sempre que tal se justificasse. Por razões que ainda hoje ignoro, daquela vez, ficou-se pelo "discurso". Já na Praça da República vislumbro, aproximando-se por entre o expesso nevoeiro, o funeral que há pouco estava na Igreja de Sntiago. Ladeando o carro fúnebre, quatro elementos da GNR. Perante um silêncio absoluto vejo como inflete para a direita em direcção ao cemitério da cidade. Atravesso a Praça e ao fundo lá está ainda a velhinha fonte e mais as escadas aprumadas e estreitas. O que antigamente fazia em corrida e a duas e duas faço-o agora a custo e a uma e uma. Ao cimo olho para trás num olhar de despedida não sem antes recordar que ali de cima, caiu uma vez o então meu colega Rui que comigo tentava vislumbrar a nossa colega Carolina, por quem andávamos os dois de "olhos trocados". Diziam as más línguas no Liceu de que tinha sido eu que empurrara o Rui. A esta distância dos factos posso vos asssegurar que o Rui se desiquilibrou sozinho. O pé torcido foi consequência do destino. Os dois últimos anos de Liceu foram passados no então chamado "Anexo do Liceu". É para lá que me dirijo, ali a quarenta metros. Desses tempos apenas resta a placa na entrada a dizer "Património do Estado". No enorme largo está agora um Parque de Estacionamento. Pago. Portalegre está "armadilhado" de parques de estacionamento pagos. Há parques pagos por tudo quanto é sítio. Tenham cuidado não vos aconteça como a mim que em Setembro, por distração, por cera de dez minutos de estacionaento paguei a quantia de 30 euros por falta de ticket. Melhor, por nem ter visto a máquina. Voltemos ao largo do antigo anexo: ali estão agora sediados a CERCIS Portalegre e a Liga dos Antigos Combatentes. Paredes meias está a Fábrica da Cortiça, a Robison. Está inativa e a enorme chaminé, envolta no espesso nevoeiro já não deita o fumo escuro de há quarenta anos atrás. Era certo e sabido: se o fumo vinha para a cidade chovia, se "voava" para fora da cidade não chovia. Tudo acaba! Do outro lado da Estrada da Serra descubro uma rua que desconhecia. Dá pelo nome de Rua da Cooperativa Operária. Estreita, inclinada, lá tem a meio a dita Cooperativa em cuja fachada está inscrita a data de fundação: 29-4-1898. Desemboca na Rua do Pirão. Preparo-me para subir esta quando, mesmo junto à antiga Farmácia Chambel recebo um telefonema a dizer que está na hora de regressar a Avis. Faço-o por gosto, mas com vontade de qualquer dia voltar a perder-me pelas ruas desta cidade onde gastei alguns dos melhores anos da minha mocidade.
Junto à minha viatura um polícia municipal verifica o pagamento dos estacionamentos. Desta vez estou à vontade. São 11 e 50 e tenho parque pago até as 12 horas. Pergunto-lhe se sabe quem morreu e reponde-me que foi um Sargento Ajudante da GNR. No activo. Morreu de doença prolongada.
Em 28 de Dezembro de 2009.

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