Poderia pensar-se que, por começar hoje e se prolongar até ao próximo Domingo, a Feira Medieval de Avis, esta semana não haveria Cestas de Poesia. Mas uma coisa não briga com a outra. Direi mais, os tempos retratados pelo nosso amigo JOAQUIM LOBATO nas décimas que se seguem, mais parecem tempos medievais. Ora vejam lá se não é verdade:
Ainda estou bem recordado
De tanto gado que guardei
Agora chegam-me lembranças
Dos tormentos que eu passei
Eu na pobreza nasci
Aos sete anos guardei gado
Andei descalço e esfarrapado
Com umas calcinhas de cotim
Dizia a minha mãe para mim
Ainda estou bem lembrado:
“Olha filho tem cuidado
Com os carapetos nos pés
Dinheiro para sapatos não tens”
Ainda estou bem recordado
Fui ajuda, fui moural
Dormi em barracas sem telhas
Afilhei milhares de ovelhas
Fui pastor profissional
Sempre ganhei um bom provial
Era o uso da lei
Tantas noites que eu pousei
Debaixo de um guarda-chuva
Naquelas noites de chuva
Tanto gado que eu guardei
Às tantas da madrugada
Tinha que eu me levantar
Para as ovelhas empriscar
Naquela vida amargurada
Sempre de costa dobrada
O corpo pouco descansa
Ali ninguém se levanta
Do princípio até ao fim
Tudo aquilo que eu sofri
Agora chegam-me lembranças
Nas noites de temporal
Minha cama era no chão
Fosse de Inverno ou de Verão
Dormia como um animal
Andei por azinhais e chaparral
E tanto que eu trabalhei
Tudo aquilo que eu pude dei
E hoje sinto essa dor
E ninguém me deu valor
Dos tormentos que eu passeiAutor: Joaquim Honório Oliveira Lobato, 2002