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" Encontrei-o hoje mesmo no Jardim do Mestre a descansar,..."Com esta “IX Cesta de Poesia” acaba o mês que dediquei ao meu amigo Joaquim José Lourenço a quem a mãe uma vez alcunhou de Ministro. Encontrei-o hoje mesmo no Jardim do Mestre a descansar, a meio caminho entre a Casa do Benfica e a sua própria casa. Eram quase horas de almoço. O Ti Zé Carlos tinha razão ao dizer-me: “o Ministro agora anda embeiçado com a Casa do Benfica”.
Todos os dias lá vai de manhã. Lê o jornal e dá umas lérias com o Cabo Malaquias ou com quem calha a estar por ali.
Vamos pois acabar este mês, mas em discurso directo. Oiçamos pois o que me disse o nosso poeta ancião:
- Olhe, uma vez, foi no Sábado Gordo do ano de 1933, vinha eu cansado de um baile onde tinha ido tocar lá para os Montes da Aravia. Eu tocava muito bem! Ao princípio tocava e as pessoas faziam um peditório, uns davam um tostão, outros dois e eu ganhava qualquer coisa. O meu pai soube disso, ralhou comigo e para o fim já tinha um pagamento certo por cada baile que fazia. Ganhava 20 ou 25 escudos conforme as ocasiões.
Voltando ao tal Sábado Gordo, ia eu a caminho de casa quando ouvi cantar ao despique numas casas dos montes do Almadafe. Aproximei-me e meti-me ao barulho com uma “tipa” que estava a dar porrada nos homens todos que lá havia. Então foi assim. Eu é que comecei e depois ela foi-me respondendo e eu a ela. Tome lá atenção:
(Eu)
Eu vinha por aqui passando
Sem nada disto saber
Mas ouvi-te andar cantando
Voltei para traz, vim-te ver!
(Ela)
Olha quem agora veio
Mais quem agora chegou
Estava para me ir embora
Mas assim já me não vou
(Eu)
Ó alegria do mundo
Aonde é que tens andado
Eu tenho corrido tudo
E não te tenho encontrado
(Ela)
Tu andas atrás de mim
Como a pêra atrás do ramo
Tu andas para me enganar
Mas contigo fica o engano
(Eu)
Anda o sol atrás da lua
A lua atrás do luar
Minha alma atrás da tua
Sem a poder encontrar
(Ela)
A ladeira do meu monte
É custosa de “assubir”
Se não queres lá ir não vás
Que eu não te mando lá ir
(Eu)
A ladeira do teu monte
A mim não me mete medo
Eu havia de ir mais tarde
Vou uma hora mais cedo
(Ela)
Eu fui ao jardim da nora
Arrancar o pé à “sucena”
Vês o que fazes agora
E depois não tenhas pena
(Eu)
Quando é quase sol-posto
É que eu gosto de cantar
És um amor ao meu gosto
Não tenho a quem me voltar!
Nesta altura ela atirou-se a mim e fartou-se de me dar beijos e abraços de contente. Dali fomos pelos montes fora cantar todos em coro até de madrugada, uma cantiga que eu gostava muito de cantar e que era a Canção da Maria do Carmo. Cantávamos todos assim:
Maria do Carmo
Minha padroeira
Dá-me quatro figos
Olaré sim, sim,
Da tua figueira
Ai sim sim,
Há mais quem queira
Grou-grou
E o galo cantou!
O galo cantou
Deixá-lo cantar
Maria do Carmo
Olaré sim sim
Eu hei-de te amar
Ai sim sim
Eu hei-de te amar
Grou grou grou e o galo cantou!
Com este “galo a cantar” encerra esta Cesta de Poesia. É pena vocês não poderem ouvir o sentimento com que esta canção foi interpretada: a voz raiava a saudade!
Com tristeza ficamos por aqui, pois certamente que o amigo Joaquim José Lourenço ainda teria muito mais para nos ensinar.
Talvez que tenhamos uma segunda oportunidade de o ouvir.
Para o mês que vem novo poeta virá à liça.
Até lá!