Foto: "E OS HOMENS ESCOLHERAM O CAMINHO" (contracapa)José Ramiro da Silva Caldeira, distinto Professor de História, escreveu no último número da Folha Informativa “Águia” da Amigos do Concelho de Aviz, uma importante crónica sobre “Os rapazes de Valongo na Guerra Colonial”. A páginas 8 daquela Folha Informativa (nº 25) afirma o historiador que, e passo a citar: “os primeiros actos de guerrilha iniciaram-se a 15 de Março de 1961, no Norte de Angola, mais concretamente na região dos Dembos…” e mais adiante:” … os naturais ou com fortes ligações à freguesia de Valongo que participaram nas três frentes de guerra…escaparam da morte”.
Porque faz precisamente hoje 47 anos que a denominada guerra colonial se iniciou resolvi visitar o “Talhão reservado a militares falecidos no Ultramar” no cemitério de Avis, cuja placa indicativa da sua localização se encontra arrancada e solta, dando uma certa imagem de desleixo, contrariamente ao aspecto geral do cemitério.
Ali repousam os restos mortais de dois rapazes que foram meus amigos: ANTÓNIO JOÃO CARREIRAS DAS NEVES (N:14-11-1947/F:30-08-1972) e CARLOS GABRIEL NUNES, sem identificação de data de nascimento e morte. Do primeiro guardo um livro por ele escrito e cuja contracapa acima reproduzo, intitulado “E os homens escolheram o caminho” e do Carlos Nunes (Carlitos) guardo a imagem de uma foto em ponto grande que se encontrava na Câmara Municipal nos tempos em que por lá trabalhei. Além disso a amizade dos dois que muito prezava.
Os momentos mais negros do cumprimento do meu serviço militar obrigatório, foram sem dúvida os funerais destes dois mártires pois que, por força das funções que à data dos óbitos ocupava, acompanhei de perto (perto demais!) os dois funerais. Tento não recordar esses dias mas eles teimosamente não desaparecem da minha memória. Igualmente marcantes para mim foram o funeral de um sargento que fui fazer lá para os lados do Sardoal e certa vez que fui confirmar a morte de um soldado no Ultramar (já não sei em que província) a uma família que vivia ali logo à entrada de Galveias do lado direito (sentido Avis -Ponte de Sôr). O soldado em causa era casado e ainda tenho presentes os gritos lancinantes da mãe, agarrada a mim, a dizer-me que eu lhe acabara com a esperança que tinha que o seu filho ainda estivesse vivo. Foram momentos muito dolorosos que hoje aqui deixo registados. E pergunto: para quê todo aquele sacrifício, aquelas mortes? Não tenho explicações ou comentários.
Como sempre, os responsáveis saem incólumes das responsabilidades e também como sempre o velho chavão de que “a História os julgará” como se a História pudesse restituir a vida àqueles que morreram na meninice dos seus vinte e poucos anos.
Não mais voltarei a este assunto!

















