Foto 1 - Virgílio Vidinha, Sérgio Godinho, Ricardo Godinho e António Papeira, falaram sobre "Bandas Filarmónicas"A rapaziada da Amigos do Concelho de Aviz – Associação Cultural, sofre de uma doença rara que chamarei de teimosia perigosamente saudável. Passo a explicar: apesar de certos reveses que os seus "Café com Letras" por vezes sofrem, em matéria de assistência, não desistem, continuam e ao que ouvi na passada quinta-feira, fizeram (pasme-se!) a sessão número 62 daquele espaço de troca de ideias.
O facto de terem assistido a este "Café com Letras" apenas nove pessoas, contrastando com as quase cinquenta que tinham tido há quinze dias, nem por isso a conversação deixou de ser animada. Como tema de discussão “As Bandas Filarmónicas” que contou com a presença de António Lopes Papeira músico que foi da Banda 1º de Dezembro de Avis (você sabia que a Banda de Avis se chamou 1º de Dezembro? Eu também não sabia…fui lá e agora já sei) e Virgílio Vidinha regente da Banda de Alter, que se fez acompanhar de dois colegas: o Sérgio Godinho e o Ricardo Godinho.
Sobre a Banda de Avis foi uma delícia ouvir contar como eram os ensaios num casão da Rua das Lajes, de onde tiveram que sair para o antigo teatro (hoje anexado à Câmara) por causa do enorme eco que o casão produzia. Com saudade, António Papeira recordou os maestros Malheiro, Capitão Piedade, um Sargento que vinha de Galveias duas vezes por semana para os ensaios e por último Serra Moura que foi o último regente da Banda.
António Papeira disse que “ a Banda não acabou por falta de dinheiro mas por falta de músicos. As quotas e a Câmara suportavam as despesas. Com que alegria e vontade as pessoas iam para o ensaio depois de um dia de trabalho de sol a sol? E quando não tinham trabalho nem dinheiro para comer? É claro que não iam aos ensaios e a pouco e pouco a Banda acabou. O sítio mais longe onde fomos tocar foi a Figueiró dos Vinhos. Por cá íamos sempre à Senhora Mãe dos Homens e certa vez aconteceu o seguinte: fomos de carroça para o Alcórrego tocar ás festas. Aquilo cansava muito e o povo queria era mais e mais. Negámo-nos continuar a tocar, por cansaço, e então a Organização não nos veio trazer a Avis, tivemos que vir a pé do Alcórrego para cá e com os instrumentos ás costas! Nas festas de Avis, faziam um coreto de madeira no largo do Convento e era ali que actuávamos.”
Sempre achei curioso saber por onde andará a totalidade dos instrumentos e das fardas da nossa antiga Banda. António Papeira é peremptório na resposta: “Eu entreguei a farda e o instrumento (baixo) à Câmara, pois que não eram meus, mas sei que nem todos fizeram o mesmo.”
Por incrível que pareça contaram-me que ainda não há muito tempo, havia correias de suporte de instrumentos a serem utilizados num monte perto de Avis. Será verdade? Irei tentar indagar.
Os homens vindos de Alter sentem orgulho em pertencer a uma banda que foi reconhecida por El Rei D. Carlos, em 14 de Agosto de 1906 como “Real Philarmonica Alterense”. Já conta pois com 102 anos. Escritos há que a consideram constituída anteriormente àquela data, mas oficialmente é essa a sua fundação. Com uma escola de formação em permanência conseguem manter um número constante de elementos. Sentem-se satisfeitos por dos cerca de 52 executantes da banda, 8 tendo começado ali a tocar como crianças, já conseguiram tirar cursos superiores e tornarem-se profissionais. Ricardo Godinho, que presenteou a assistência com umas notas tiradas do seu Trombone de varas que dois dias antes lhe tinha custado 1300 euros, também já anda na Universidade de Évora.
Recordaram os tempos em que as bandas se dividiam em plena actuação para irem beber um copo: na primeira tasca que encontravam iam beber os músicos até ao bombo; na segunda tasca iam os do bombo para trás. Às tantas já ia tudo bêbado. Outros tempos…
Hoje na Banda estabelecem-se laços de amizade e solidariedade dignos de registo. Quem lá está fá-lo por gosto e quem não gosta sai dando o lugar a outro, afirmam-nos.
A Banda de Alter, entre Procissões, touradas e concertos faz uma média de 35 actuações por ano. Atendendo a que o ano tem 52 semanas, poderemos dizer que a média não é má.
Para que se saiba, uma curiosidade: na Banda de Alter toca uma residente em Avis, de seu nome Margarida Monteiro.
A conversa dos “Café com Letras” é sempre uma conversa interessante onde todos, convidados e assistentes aprendem algo. É um local de partilha de experiências e saberes. Talvez seja por isso que, ainda que com 9 elementos a assistir (seriam dez se a amiga Manuela Mendes não morasse em Silves) eu digo que a Amigos do Concelho de Aviz – Associação Cultural sofre de uma teimosia perigosamente saudável. São teimosos. Não desistem! E isso é salutar. Que projecção não teria esta Associação se tivesse vivido com esta dinâmica nos anos 70 do século passado, quando as solicitações de computadores, televisões e futebóis, eram praticamente nulos…
Se calhar pouco lhe interessa mas, meu (minha) caro(a) amigo(a) sempre informo que foi dito que no próximo dia 20, na sede da ACA às 18 horas, se vai discutir a problemática da “Defesa do Consumidor” com a presença de Sara Fonseca, jurista da DECO de Évora.
Ao menos por uma vez, apareça por lá! Garanto-lhe que a “doença” não é contagiosa.
















