Passei por lá hoje e vi que andam a derrubar aquela que foi durante largos anos a “Taberna do ti Pechirra” baptizada de Retiro do Caçador... desculpe lá amigo Jorge Traquinas, mas senti tantas saudades...
Luís Martinho Pechirra é um daqueles nomes que ficam definitivamente ligados à história das gentes de Avis. Quantas gerações de estudantes por ali terão passado, para comprar uma sandes ou uma pastilha, já que o então Colégio Mestre de Avis se situava paredes meias? Quantos camionistas ali almoçaram? E quantos avisenses, naturais ou residentes, ali petiscaram? A D. Felisberta, sua esposa era uma óptima cozinheira.
De piada fácil e afável, o Ti Luís tinha sempre uma brincadeira cativante para qualquer pessoa que o visitasse. Uma anedota, porque não uma mentira de caça ( foi dos primeiros a caçar e dos mais conhecedores na arte da caça, nomeadamente na caça aos pombos), tudo servia para prender quem ali se dirigisse pela primeira vez e que por certo não seria a última. Exímio, no seu dizer, na habilidade de bem jogar às cartas, era usual as noites serem ali passadas com serões de biscas de três ou nove ou uma suecada bem puxada, chegando a jogar-se simultaneamente em três mesas! O Ti Luís era sempre o campeão...melhor: quase sempre!
Recordo que por vezes lhe telefonava do meu emprego a dizer para fritar uns bocados de toucinho que eu e outro colega íamos lá beber um copo. E quando chegávamos o toucinho estava quentinho, acabado de fritar. À falta disso, uma lata de anchovas, apesar do excessivo sal que possuíam, sabiam sempre a marisco...
Recordo, por exemplo, que certa ocasião lá cheguei com um meu cunhado que ele não conhecia de lado nenhum, para beber um copo e o Ti Luís virou-se para nós e disse por estas ou outras palavras similares:
- Então não há aí mais cafés na vila? Só me vêem a mim? Tomem lá quinhentos escudos e vão beber para outro lado.
E nós fomos gastar os quinhentos escudos para o João da Zefa e na próxima vez que lá voltei, é claro que acertámos a questão dos quinhentos escudos.
Tenho mil e uma história para vos contar deste senhor de quem tive o privilégio de ser amigo. Os homens não são eternos e os edifícios também não, mas digam-me lá: só pelo que vos contei aqui, então não tenho razão para ter carradas de saudades?

