Passar às dez horas da noite de segunda feira pelo largo do Convento foi assim um bocado estranho para mim.
O bulício da noite de sábado, onde se apinharam cerca de 2700 pessoas como que se tinha esfumado, dando lugar a um vazio onde nem o vento sussurrava.
No entanto tinha ainda bem presente na retina
aquele indivíduo já bastante calvo
que nessa mesma noite de sábado,
enquanto eu ia habituando os meus “velhos” ouvidos ao alto e (des)necessário som dos “Xutos”, se ia contorcendo, nem sempre em sintonia com a música e que, ali mesmo à minha frente, eu não sabia se ele se estava a sentir mal física e mentalmente, se estava a ter um qualquer espasmo, ou, em última hipótese,
se estaria a dançar. Garanto-lhes, o homem estava passado!Segui. Mais acima as “barraquinhas” abandonadas e escuras como que me transmitiram uma certa nostalgia. Mas se calhar eu estava ali mesmo para isso.
Para rever e tentar recordar um pouco do muito que vi, ouvi e li durante esta feira, assim como que em forma de balanço. Lá estava o sítio onde,
numa iniciativa louvável, a “juventude” colocou à disposição de quem quisesse provar (e obviamente pagar)
um delicioso chá de uma qualquer erva aromática, acompanhado ou não de um crepe. E se o chá estava fresquinho...No largo Sérgio de Castro
revi o pavilhão de Rute e Fátima onde as várias galinhas “já tinham dono” ( Creio que
foi a primeira vez que vi vender “galinhas” na feira).
O Pavilhão do Município, bem situado e ocupando um espaço que ano a ano tem que ser mais rentabilizado, dado o progressivo pedido de ocupação, lá estava, igualmente só,
quase tão só como estava aquando do lançamento dos livros “Sem Fim”... o Sr. Azedo merecia mais gente no lançamento do seu livro.. mas ele não tem culpa das pessoas se alhearem destes acontecimentos.
Ao apanhar um “Boletim da Feira” ( interessante prospecto) senti qualquer coisa mexer ( talvez um gato a fugir), e
dei assim de repente com as ossadas. Arregalei os olhos,
arrepiei-me com a caveira com os dentes à mostra, como se me quisesse dizer que estava ali a mais e que, ou eu dali desandava ou ia parar lá para o pé deles,
JÁ! Não é que eu seja medroso, mas enfim, achei por bem continuar o meu passeio nocturno um pouco para mais longe daquele lugar onde,
afinal as ossadas não eram de vacas nem tinham vindo misturadas da terra do Painho. Passo em frente do
pavilhão do BTT onde vi aquele terceiro golo do Nuno Gomes contra a União de Leiria, que mais parecia um “número de feira;”
Páro junto do Pelourinho e
do pavilhão da “Hortinha do Besugo” que veio lá de Silves
( olá D. Manuela, fez boa viagem?) onde o seu
dono me havia confessado o desagrado por duas situações: primeiro, porque sendo os seus produtos doces e bolos regionais Algarvios, tinha sido colocado num sítio onde a terra levada pelo vento lhe estragava os comestíveis e consequentemente o negócio ( será que ele disse, ao inscrever-se, que vinha vender comestíveis? Não sei.)
Mais me disse o “besugo” de que as pessoas não passavam por ali, pois passavam à roda, pelo que, no seu entender, deveria haver umas limitações que obrigasse as pessoas a subir ou descer as escadas que dão acesso ao pelourinho, evitando assim que os visitantes passassem à roda, ignorando aquele pedaço de feira.
Ouvi isto sim senhor.Do Pelourinho vi a Praça Serpa Pinto onde acho que, com muita perspicácia foram colocadas
todas as Associações do Concelho. E creio que
ali estava o coração da Feira pelas razões que passo a enumerar:
-
Melhores vinhos;
- Melhor exposição que continua a ser, e oxalá o continue a ser por muitos anos, a do Francisco Alexandre;
- O pavilhão mais inovador – o da Associação dos Amigos do Concelho de Aviz, a venderem livros ao alcance de qualquer bolsa e em quantidade abundante;
- O pavilhão mais original da Feira, em termos de decoração e que pertencia à Associação Gente
- O artesão mais velho em actividade – João Joaquim Carrilho, 91 anos feitos;
- O pavilhão do maior clube de Portugal Continental e Ilhas adjacentes (desculpa lá Alberto!)Chegado ao fim deste passeio, e de ter mentalmente relembrado o que vi encostei-me a uma parede para descansar e
tentei recordar algo do que ouvi na Feira ( e ouve-se tanto!)
Ouvi dizer que, logo na sexta-feira à noite,
“ houve porrada outra vez por causa das louras”; Ouvi as pessoas
dizer que este ano havia muito menos gente, apesar de haver mais pavilhões. As culpas eram repartidas entre a Feira de S. Mateus em Elvas, as festas de Cabeção(?) a já nossa conhecida crise, a também já célebre e estafada teoria de que a feira tem que ser repensada, e eu sei lá mais quantas razões. Mas uma coisa eu garanto: a passear na feira, havia efectivamente muito menos gente que o ano passado. Ai isso foi de certeza. As causas serão múltiplas.
Ouvi uma “boca” de que iria surgir a curto prazo
uma pareceria artística em que a classe das obras do Francisco Alexandre se aliaria ao requinte e classe da D. Rute Reimão;Ouvi dizer que a D. Carolina, moradora na Rua Portas do Postigo
teve uma feira demasiado musicada para os seus oitenta e picos anos,
por via de lhe terem colocado uma coluna de som ambiente no primeiro andar da casa em que ela habita, quando em anos anteriores a referida coluna ficava um pouco afastada e virada para a Rua do Meio, provocando menos incómodo acústico;
Ouvi uma história de alguém que não me lembro já e que parece que vinha a propósito dos anseios dos médicos quererem acabar com as tentações que por vezes passam em termos de possíveis assédios sexuais em consultas. Dizia um fulano que um determinado ortopedista, percebi Dr. Pimpinha, (mas não garanto a autenticidade do nome porque o barulho era muito e a conversa não era para mim) costumava pedir às senhoras que fizessem um pequeno desfile em trajos menores, no seu consultório, para aquilatar do estado dos membros inferiores das ditas pacientes. Tendo por lá passado uma vez uma senhora demasiado gorda, e após o desfile, o mencionado médico terá dito
:” Você não é uma mulher, é um monstro!”Ouvi o escultor, Senhor Francisco Alexandre afirmar no seu discurso de abertura da exposição “Sabores da nossa Terra”, e as digníssimas autoridades que assistiram podem confirmá-lo, de que :
“As farinheiras são um problema em todo o lado”- fim de citação.
Ouvi tanto, tanto, mas tanto, que não posso contar mais nada. Mas lá que as feiras são um rico sítio para ouvir coisas, lá disso não tenham dúvidas.
Antes de deixar a Serpa Pinto
ainda relembrei o que li na Feira:Desde logo
o jornal Fonte Nova com um suplemento dedicado a Avis. E lá li que
o Sr. Presidente da Câmara tem esperança de que daqui a 20 anos o concelho de Avis tenha uma população superior em 50% àquela que tem hoje. E eu que já estou tão velho para ver como é que terminará esse sonho do Sr. Presidente;
será que vai ser proibida a venda de contraceptivos no concelho?Li e descobri também
que o Mestre Orlando, meu conhecido de há mais de 30 anos
tem, tinha ou teve a alcunha de “Romão”...as coisas que se aprendem numa Feira!
Li uns versos do Sr. Artur Azedo que dizem: Sem se nascer poeta/Isso eu posso afirmar/Que só depois dos oitenta/Comecei a versejar/
Confesso que não percebo a ideia expressa nesta quadra,
mas ela deve lá estar, eu é que não a enxergo!Em princípio, em termos de Feira,
é o fim.